19 de Novembro, 2015
Mesmo antes de anunciada a aliança, eventualmente de
circunstância, entre Hollande e Putin, já Moscovo fazia cair sobre
posições do Estado Islâmico o seu poder militar.
Num movimento sem precedentes, Vladimir Putin deu instruções para que a frota russa do Mediterrâneo coordene as suas acções com a frota francesa, por forma a maximizar o efeito dos ataques. Não foi, certamente, por acaso, que os russos se juntaram neste preciso momento. Três factores devem ser considerados: o atentado à aeronave civil russa, a cimeira do G20 na Turquia e as vantagens diplomáticas desta aliança com a França. Na Turquia, à margem do G20 muito trabalho diplomático deve ter decorrido. Não existe precedente no sobrevoo não autorizado de mísseis de cruzeiro russos sobre a Turquia, com que Moscovo não mantém tradicionalmente boas relações, sendo retribuído por Ancara. Alem disso, os parceiros europeus dos EUA falam cada vez mais numa união de esforços contra o terrorismo, incluindo a Rússia, com quem as relações ficaram especialmente tensas depois dos acontecimentos na Ucrânia.
François Hollande tem uma cimeira marcada em Moscovo com Vladimir Putin para 25 deste mês, escassas 24 horas depois de se encontrar em Washington com Barack Obama. Não é claro se o encontro com o chefe da Administração americana já estava marcado ou se o foi depois de assente a reunião com Putin. Em qualquer dos casos, parece estar a formar-se finalmente uma aliança militar e diplomática contra o Estado Islâmico, considerada há muito essencial para a resolução da questão síria. Ainda não é evidente se o Irão terá algum papel e qual, já que é a Guarda Revolucionária iraniana quem mais tem combatido os terroristas, em conjunto com as milícias curdas e o que resta do Exército regular sírio.
Também Merkel pressiona essa aliança, muito em especial depois de ameaças de bomba na Alemanha. Não deixa de ser curioso constatar a atitude até agora reservada de Londres, que na Líbia acompanhou de imediato a acção francesa, bem menos justificada que as operações que decorrem desde o final da semana contra os terroristas do Estado Islâmico. Pode-se estar no início de uma viragem de estratégia, mas com contornos muito complicados, já que dois dos aliados dos EUA, Arábia Saudita e Qatar, financiam e armam directa ou indirectamente as forças anti-governamentais sírias, armamento que acaba por cair nas mãos do Estado Islâmico com demasiada frequência. Além disso Washington parecia alérgico a Bashir Al Assad, figura que os russos parecem considerar incontornável numa solução diplomática.
Parece uma nova fase que pode mudar alguns aspectos da geoestratégia regional, mas também pode ser o início de um enorme “flop”.