sábado, 5 de setembro de 2015

A Europa humanitária


Benjamim Formigo
5 de Setembro, 2015

O tempo para a discussão do sexo dos anjos acabou. A Europa, líderes europeus e eleitores, têm de decidir se querem entrar no século XXI como os que viraram as costas a uma tragédia humanitária ou os que em pela crise interna estenderam a mão aos que necessitavam.
A crise dos refugiados do arco de conflito do corno de África à costa Ocidental do continente, passando pelo Médio Oriente, não pode mais ser ignorado. A Europa, por tradição e pelos valores culturais que diz defender tem de tomar a iniciativa. Certo que atravessa uma crise económica e financeira graves, mas está a sair dela lentamente, certo que os eleitores receiam que os refugiados ocupem postos de trabalho baratos agravem a situação de desemprego, certo que alguém tem de pagar. Certo nada. A crise económica está a ser prolongada porque a finança manda na política. Os refugiados não vão desempregar ninguém, mas se entrarem no mercado de trabalho ajudam na resolução da crise da segurança social. O pagamento tem de ser feito em investimento, mesmo investimento do Estado, e o limite dos défices terá finalmente de ser redesenhado, pois a Europa não se manteve uma união imutável em mais de vinte anos. Finalmente, mas não menos importante, a Europa tem responsabilidades na chamada “primavera árabe”, na queda de Kadhafi e no caos da Líbia, no Iraque e na Síria. Também não menos importante, a tradição de asilo da História da Europa.
Quando os desprovidos batem à sua porta a Europa rica, mesmo os mais pobres são ricos, têm de ouvir esse grito de angustia e de finalmente concertar uma posição para absorver a crise dos 350 mil refugiados de guerra. Uma posição que determine o número de refugiados que compulsivamente cada Estado membro terá de receber. De resto é isso que se espera de uma proposta conjunta que Alemanha, França e Itália apresentarão quarta-feira. Atitudes como a que se tem passado na Hungria não são admissíveis para a Europa nem para o resto do Mundo. A imagem da polícia de choque húngara alinhada ao longo de um comboio de refugiados evitando saídas podia ser apenas uma actualização da época das deportações nazis para campos de concentração, note-se de resto que os refugiados haviam embarcado naquele comboio sob a informação de que iriam para a Áustria e Alemanha quando na realidade iriam para um campo de concentração pois o Governo húngaro lhes recusa qualquer apoio. O Executivo de extrema-direita neonazi que governa em Budapeste está a violar os princípios básicos constituintes da Europa do Tratado de Roma de 1957. A Europa não tem espaço para neonazis.
António Guterres, alto comissário da ONU para os refugiados, acusou esta semana em termos bem duros a inércia da União Europeia, salientando precisamente a tradição europeia de asilo e criticando a falta de coordenação entre Estados.
A liderança da resposta europeia foi assumida pela chanceler Merkel que não só anunciou que o país estava aberto a acolher refugiados como tomou a iniciativa de escrever a François Hollande e concertar com ele uma posição extensiva agora a Itália. Angela Merkel sabe que terá de vencer os receios de muitos alemães ou ir contra eles, como o sabe Hollande e outros dirigentes europeus decididos a distinguir xenofobia do receio pelo posto de trabalho.
A Comissão Europeia procurou não ficar na sombra sugerindo mais 140 mil refugiados. Todos parecem querer mostrar empenho, até David Cameron, mas os refugiados necessitam mais do que palavras. Quanto à União Europeia, o que está em jogo é a sua imagem e a sua credibilidade internacional. Vamos ver como irá responder a esta gigantesca crise. Em especial, como responde às crises na origem deste êxodo sem precedentes, provavelmente desde a II Guerra Mundial.