terça-feira, 4 de agosto de 2015

Pesadelo da acção turca


Benjamim Formigo
4 de Agosto, 2015

Por ter sido trocado, na semana passada, o nome do autor e da coluna, voltamos hoje a publicar o texto semanal assinado pelo nosso colaborador Benjamim Formigo. Ao autor do texto e aos nossos leitores, apresentamos sinceras desculpas.
Ao que parece, americanos e europeus não aprenderam nada com a Líbia.Ao que parece, a Turquia, que se manteve como observador atento no conflito sírio, faz parte de uma organização militar – a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) – de que se serve se e quando tem necessidade. Ao que parece, a Turquia esteve-se completamente nas tintas para uma questão geoestratégica essencial, atacando na semana passada os curdos que têm sido o apoio terrestre essencial no combate ao autoproclamado “Estado Islâmicodo Iraque e do Levante”.  Nem a coincidência de um ataque simultâneo a forças do “Estado Islâmico” menoriza os danos potenciais da decisão do Presidente turco Recep Tayyip Erdogan.
Se publicamente o secretário-geral da OTAN veio timidamente falar de autodefesa da Turquia face ao “Estado Islâmico”, que dias antes atacara uma localidade turca, o facto é que não fez a menor referência ao ataque a uma base curda no Norte do Iraque, nem à violação do espaço aéreo iraquiano pela Turquia.
Em privado, vários diplomatas, incluindo norte-americanos deixam saber que Ancara não teve o apoio de Washington e teimam em salientar que esse ataque aos curdos nada teve a ver com um acordo que passou a permitir à aviação americana operar a partir de Incirclik e Diyabakir. Com esta autorização, os ataques americanos tornam-se de facto mais fáceis e em tempo mais útil e os drones que observam o terreno têm maior autonomia de voo. Deixam de ter de operar a partir do Golfo para estar em cima do teatro de operações.
Para Erdogan, a presença no Parlamento do Partido Popular Democrático (HDP, em turco) com cerca de 10 por cento dos lugares, considerado a ala política do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) – a guerrilha que defende um território curdo autónomo – é um impedimento a que consiga a sua revisão constitucional atribuindo ao Presidente poderes executivos. O Presidente curdo, ao permitir que o seu Governo atacasse forças curdas do PKK, quebrou uma trégua que durava havia três anos, durante os quais demoradas conversações andavam de impasse em impasse, com os dois lados a acusarem-se mutuamente.
Que o Presidente turco não quer Bashir Al Assad na presidência da Síria não é segredo. Esse é o seu objectivo assumido desde o início da guerra da Síria. Contudo, é no mínimo inconcebível que no contexto da luta contra o “Estado Islâmico” Ancara venha criar um pesadelo à aliança contra a actividade terrorista dos radicais. A acção da aviação só por si é um desperdício se no terreno não existirem tropas que ocupem as posições abandonadas pelo “Estado Islâmico” na sequência de raides aéreos ou acções conjuntas de forças terrestres e aéreas. O vazio, a ocorrer, e quando ocorre, diz-nos a experiência, é ocupado pelo “Estado Islâmico”.
Nem todos os curdos são turcos, nem todos se identificam com o PKK e o seu braço político. Mas são curdos dispersos pelo Iraque, Síria, Turquia e Irão, com uma História, um passado e um linga comum. E são os curdos que têm sido a espinha dorsal da resistência ao “Estado Islâmico” quer no Iraque como na Síria. Uma aliança não oficial entre este povo que defende o território curdo, e para além dele, substituindo-se muitas vezes aos Exércitos do Iraque ou da Síria, com poucos efectivos e provavelmente menos motivação dado o terror que infunde o “Estado Islâmico”.
Manter esse apoio, essa coligação não declarada, tornou-se um pesadelo diplomático desencadeado pela Turquia. A desculpa de criar uma zona tampão com mais de 150 quilómetros de comprimento ao longo da fronteira da Turquia com a Síria e o Iraque não faz qualquer sentido, pois essa zona está ocupada por quase dois milhões de refugiados e seria necessário que a Turquia ocupasse o território com tropas, o implicaria outro grau de envolvimento e teria consequências internacionais. Para já, porque Moscovo não tem grande simpatia e menos confiança em Ancara, depois porque poria novas ameaças à Síria, e por aí fora. A visita da delegação turca a Pequim vai ser dominada por negócios, mas a China – que tem alinhado sempre com a Rússia – mão vai deixar de fazer sentir o seu desagrado.
A acção militar turca não tem qualquer explicação, a não ser a motivação interna para retirar a imunidade dos parlamentares curdos e persegui-los, criando uma situação de ilegalização dos partidos que apoiem os curdos – que Ancara considera terroristas – e convocar novas eleições, obtendo Erdogan a maioria de que necessita. Mas o Presidente turco não se fica por aí com o apoio de vários países árabes que querem ver Assad de partida.
Uma mudança na estratégia de Bashir Al Assad pode mito bem estar em curso. Passaria por deslocar as forças lealistas para a faixa entre Damasco e o mar, deixando o restante território que actualmente está dividido em parcelas ocupadas e dominadas ora por uns ora por outros. O facto é que o Hezbollah se concentra na zona de fronteira com o Líbano, uma ou duas dezenas de milhares de combatentes iranianos estão na zona costeira e Assad reconheceu publicamente que o Exército sírio não tem efectivos suficientes para todo o território. A médio prazo, Assad manteria o poder, a médio e longo prazo o Estado sírio desmoronaria, a exemplo do que sucedeu na Líbia. O “Estado Islâmico” teria, provavelmente, o seu califado e os problemas americanos no Iraque iriam agravar-se com o “Estado Islâmico” a canalizar para ali as suas forças. O pesadelo dos norte-americanos dificilmente pode ser maior.
E os curdos? Essa é a incógnita que ninguém ousa responder. Muito provavelmente, concentrar-se-iam na defesa do Curdistão iraquiano, onde está boa parte do petróleo, e não seria de esperar que abandonassem os seus irmãos turcos, aumentando o problema que Recep Tayyip Erdogan Erdogan tanto receia: que os curdos ocupem um território e se autonomizem. Apesar do imenso poder militar turco.