sábado, 22 de agosto de 2015

Eurozona ou "eurodiktat"


Benjamim Formigo |
22 de Agosto, 2015

A crise grega voltou a acentuar-se após a negociação e aceitação do terceiro pacote de auxílio económico aprovado pela eurozona há semanas, cuja primeira fatia foi paga nos últimos dez dias. Alexis Tsipras, o primeiro-ministro eleito numa plataforma anti-austeridade apresentou a sua demissão.
Um terço dos deputados do seu partido, o Syriza, votou contra o euro-pacote ou absteve-se para que pudesse ter aprovação parlamentar com o apoio do restante partido e parte da oposição.
A demissão não foi totalmente inesperada. Tsipras estava em posição enfraquecida depois de ter convocado um referendo que recusou as medidas de austeridade que o euro-pacote implicava. Pressionado pela situação financeira, designadamente, da banca grega estrangulada pela falta de financiamento do Banco Central Europeu (BCE), certamente concertada com o Eurogrupo, não restava outra alternativa a Tsipras que não a de aceitar, com algumas alterações cosméticas, o euro-pacote. Para prosseguir com alguma tranquilidade um caminho que o FMI considera “impossível” Alexis Tsipras necessita de um mínimo de estabilidade. O euro-pacote teve a oposição alemã e de outros parceiros europeus e ainda se desconhece a verdadeira extensão das pressões dos Estados Unidos sobre a Alemanha e outros aliados europeus. Para Washington, Atenas aproximava-se demasiado de Moscovo e a Grécia tem para a OTAN uma localização estratégica.
A resistência grega foi fútil contra o “eurodiktat”. O Eurogrupo quis, o Eurogrupo impôs. Os gregos não queriam abandonar o euro e Tsipras teve de conciliar o inconciliável. O espantoso é que apesar das críticas do FMI e dos seus alarmes relativamente à sustentabilidade do euro-pacote, os neoliberais do Eurogrupo mantiveram a ortodoxia já comprovadamente uma receita de fracasso. Os casos da Irlanda e de Portugal não são casos de sucesso da receita, apenas eram menos complicados. A Grécia tem problemas estruturais que se reflectem na sua despesa pública e dívida externa (muita com origem privada). O FMI fez saber que se mantinha fora deste pacote de auxílio se não houvesse uma reestruturação da dívida, mais claramente um perdão parcial considerável. A manter-se a presente situação, segundo o FMI, uma fatia do resgate ia para a capitalização da banca grega, a austeridade iria contrair ainda mais o consumo e aumentar o desemprego, provocando uma diminuição das receitas fiscais do Estado e o aumento da despesa social.
A dívida nas condições impostas não é, para o FMI, sustentável, ou seja, pagável. O “eurodiktat”, contudo, fez orelhas moucas aos alertas do FMI, seguindo o princípio definido pela Alemanha de que no zona euro não pode haver perdões de dívida. Há quem sustente que Angela Merkel poderia estar disposta a debater o assunto, mas que tem a oposição absoluta do seu ministro da Finanças, Wolfgang Schauble, a que se junta Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo e ministro das Finanças holandês.
Com a atenção focada exclusivamente no euro e sua sobrevivência é evidente que a solução é distorcida, alheia à realidade e arrisca a ser causa permanente de focos de crise. Claro que o “eurodiktat” tem, inconfessadamente, subjacente o receio de que em Espanha, França ou Itália, a situação financeira se possa complicar, apesar de Espanha e Itália estarem a seguir medidas de austeridade e terem, de facto, de forma camuflada, a complacência equivalente aos programas de austeridade. Não se percebe muito bem como é que o Eurogrupo fiel ao seu “eurodiktat” vai realizar o resgate à Grécia sem o apoio do FMI. Como resta saber se o FMI pode ficar de fora sem afectar a sua credibilidade. Para já, os efeitos deste início de crise grega não se estão a sentir no euro, que se está a valorizar face ao dólar, invertendo (pelo menos, temporariamente) uma tendência de queda, mas a verdade é que a valorização do euro tem mais a ver com a política das taxas de juro do Reserva Federal americana e o impacto da crise asiática nos EUA do que com a solidez financeira da eurozona. Resta também saber se a eurozona pode sobreviver ao “eurodiktat”. Se o euro quer ser mais do que uma construção política à medida dos países mais ricos, a União Europeia tem de recentrar as suas prioridades. Sobretudo, não tomar a sua própria propaganda pela realidade.