9 de Agosto, 2015
Calais, Normandia, Norte de França tornou-se o símbolo da
vergonhosa política da União Europeia face aos refugiados, em especial
da atitude inqualificável do Primeiro-Ministro britânico David Cameron.
Responder à crise humanitária que se desenvolve às portas da União Europeia com o envio de tropas, polícia com cães e barreiras de arame farpado não é certamente um exemplo de defesa e respeito pelos Direitos Humanos, tal como não abona à imagem do Presidente francês permitir esse desembarque britânico.
O Mediterrâneo está a ser um cemitério de pessoas que fogem de conflitos que vão das investidas do Boko Haram, na Nigéria, à guerra na Síria, ao conflito na Eritreia, no Sudão, entre outros. Contribui para essa catástrofe humanitária a desagregação do Estado na Líbia, o enfraquecimento do Estado na Síria e o quase colapso das economias desde o Afeganistão à Líbia. Todavia, segundo autoridades e organizações não governmentais em Itália a maioria dos refugiados que chegam à costa europeia ou são resgatados em pleno mar pelas patrulhas das marinhas de guerra europeias foge apenas da violência, muitos deles depois de terem já perdido uma parte das famílias nesses conflitos.
Ora, a triste verdade é que Grã-Bretanha, a França, os Estados Unidos e em menor grau outros países europeus estiveram ou estão directa e indirectamente envolvidos nessa catástrofe. Quem liderou o apoio aéreo aos grupos armados que levaram ao desagregar do poder na Líbia foram a Grã-Bretanha, a França, os EUA que, como sempre, se envolveram na cobertura política de uma “coligação” através da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Foram os políticos europeus e americanos quem promoveu o fornecimento de armas aos grupos rebeldes líbios, à oposição síria, a toda a chamada “primavera árabe” sem uma estratégia outra que não fosse a mudança de regimes na convicção optimista de que o poder iria para às mãos do que consideravam ser forças mais favoráveis aos seus interesses financeiros. Autênticos aprendizes de feiticeiros que jogaram com a vida de milhões de pessoas.
A situação vivida na União Europeia é uma consequência directa desse aventureirismo. Pior ainda, uma consequência de uma política inacreditável de não investir no Norte de África, de não promover o seu desenvolvimento, deixando os pobres à porta de casa.
A situação social vinha-se deteriorando desde a década de 80 do século passado. Finalmente, com a desestabilização político-militar, a corda deixou de esticar mais. Rebentou. Milhares de seres humanos lançaram-se literalmente ao mar para salvar as suas vidas. Milhares morrem na tentativa de chegar a um porto onde encontrem segurança física, pelo menos.
Perante a crise a que a situação em Itália, na Grécia e em Chipre atingiu, a União Europeia respondeu com um projecto de combate aos traficantes de pessoas. Um subsídio à Itália e aparentemente outros mais discretos à Grécia e Chipre foi a tímida resposta europeia a complementar a decisão de combate aos traficantes.
A semana passada a Comissão Europeia chegou a anunciar concessão à França de uma primeira fatia de uma dezena de milhões de euros (parte de um subsídio estimado em 60 milhões) para fazer frente à situação em Calais. Então e as quotas de refugiados decididas em Conselho Europeu, por acaso por pressão alemã? Não são obrigatórias e ficam muito aquém do necessário para dar alguma dignidade a toda aquela gente.
Eleitoralmente porém parece que fica bem. Os governos deixaram de educar os eleitorados, só se importam com os votos. Se o eleitorado se torna xenófobo, os governos não respondem, recordando as ondas de refugiados que duas guerra no século passado provocaram na Europa. Cinicamente, fingem que estão a gerir uma crise de forma a recuperarem os votos perdidos.
Se a União Europeia é de facto tão ciosa dos Direitos Humanos, devia começar em casa. É que a condição de refugiado, só por si é uma violação dos Direitos Humanos.