12 de Julho, 2015
O resultado do referendo de domingo na Grécia só foi
surpresa para quem queria andar distraído. Os gregos pronunciaram-se e a
bola passou para os parceiros europeus, em particular os do Eurogrupo.
Os gregos pronunciaram-se pelo óbvio, não é possível viver num regime de austeridade já lá vão cinco anos e não ter perspectivas de recuperação. O próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) o reconhece num relatório que, surpreendentemente, na semana passada, em plena campanha do referendo, divulgou considerando a dívida grega impagável e abordando a necessidade de um perdão parcial.
O relatório teve pouca divulgação na Europa, à excepção claro da Grécia. Sendo o FMI um dos maiores críticos de Tsipras e em larga medida responsável pela actual ruptura, é lícito interrogarmo-nos sobre o “timing”. Para muitos, a mão dos EUA esteve por trás desta publicação. Washington tem manifestado repetidamente preocupação com uma eventual saída grega do euro ou mesmo da União Europeia. Daí as conversas de Obama com Merkel e Hollande e do presidente da Reserva Federal com os governadores dos bancos centrais e até mesmo do Banco Central Europeu (BCE). Não porque a Casa Branca tenha particular simpatia por Tsipras, mas porque a Administração norte-americana não está mesmo nada disposta a enfrentar uma nova crise, e muito menos uma aproximação de Atenas a Moscovo.
As maiores dificuldades a um acordo entre a Grécia e os seus credores vêm dos seus parceiros europeus. Tsipras pretendeu recomeçar negociações na segunda-feira manifestando assim disponibilidade negocial e empenho no euro, mesmo que domingo, quando o primeiro-ministro grego fez este anúncio não se conhecesse qualquer proposta em apreciação.
Angela Merkel, tal como François Hollande, Jean-Claude Junker ou o radical ministro das Finanças holandês que preside ao Eurogrupo mantiveram-se em silêncio apesar de um porta-voz do Governo alemão fazer coro com o presidente do Eurogrupo, rematando de novo a bola para o campo grego ao afirmarem que cabia a Atenas apresentar novas propostas.
Merkel limitou-se a deixar saber que entendia não estarem reunidas as condições para uma reestruturação da dívida grega. Na verdade, nestas circunstâncias quanto menos se falar melhor. O clima de tensão entre a Grécia e os seus parceiros europeus subiu demasiado e é necessário que os ânimos arrefeçam, e quanto mais depressa melhor.
Os partidos europeus tradicionais nesta fase do campeonato já se deviam ter apercebido de que os eleitores estão abertos a novas propostas alternativas – veja-se o que sucedeu na Grécia com a vitória do Syrisa, em Espanha com a votação no Podemos, em Itália ou em França, onde a extrema direita isolacionista ganha terreno dia-a-dia. Possivelmente ainda não perceberam.
A verdade é que se a Grécia está entre a espada e a parede com o esgotamento do dinheiro e pode ter de cair numa saída do euro, não é menos verdade que o Eurogrupo, deixando isso suceder, está a dar um sinal de fragilidade que tem consequências graves bem para lá da Europa. Do ponto de vista estratégico, já o escrevemos várias vezes, está a favorecer Moscovo, um contra-senso numa União que, com a sua política face à Ucrânia, parece ter feito da Rússia um adversário à semelhança dos EUA. Sem esquecer claro que existe uma sobreposição entre membros da OTAN e da União Europeia.
Portanto, se a Grécia está numa posição difícil, o resto da União Europeia não está menos. Pagar pela permanência da Grécia ou pagar os custos da sua saída basicamente é a escolha que o Eurogrupo, sob liderança alemã, tem de fazer. Pagar reestruturando a dívida grega, levar Atenas a concordar com a fuga à evasão fiscal e os gregos a contribuir para a sua própria economia transitando da economia paralela para a institucional é outro caminho. Não serve de nada injectar na economia grega biliões apenas para pagar dívidas antigas e juros, o dinheiro futuro tem de entrar na economia real, propiciar o desenvolvimento e o crescimento e deste modo reduzir o desemprego e aumentar as receitas fiscais.
A alternativa é deixar cair a Grécia facilitar ou estimular a sua saída do euro e quiçá da União Europeia. Neste caso essa União Europeia terá de enfrentar as consequências da crise que vai abrir. Uma crise que vai atingir o euro e, portanto, reduzir o poder de compra do mercado europeu, afectando as economias de fornecedores de matérias-primas, pela contracção de importações desses mercados, ao mesmo tempo que o valor da moeda europeia estimula as importações de bens europeus.
Não é necessário especular muito para recear as consequências.