19 de Junho, 2015
A aparentemente inesgotável crise grega e a ameaça da saída
do euro ou, em caso extremo, da União Europeia ultrapassam as
fronteiras elitistas da Europa rica, ameaçando relações comerciais da
União Europeia, quer no seu interior quer no comércio com outros
países, em especial as economias emergentes que sentem já efeitos de
outras crises globais.
As implicações de um afastamento grego, da eurozona ou mesmo da União Europeia, não passam despercebidas no âmbito da OTAN neste momento pouco confortável, com a situação no Leste da Ucrânia e em simultâneo a continuada viragem islâmica do Governo, tradicionalmente secular, da Turquia. Ancara deixou de ser o aliado obediente, as ligações hoje são quase conjunturais, com o apoio turco à oposição armada na Síria, onde o autodenominado “Estado Islâmico” controla uma considerável parcela de território, ao mesmo tempo que consegue sustentar um confronto no Iraque e exportar o conflito para várias zonas de África. Ninguém sabe seriamente se pode contar com a Turquia que continua a manter uma situação de ocupação militar parcial de outro Estado da União Europeia – Chipre, o que criou um conflito até agora insanável com a Grécia. Neste contexto, Atenas tem uma importância geoestratégica que não pode ser ignorada. E isso mesmo deixou Barack Obama implícito durante a última reunião do G-7, ao apelar ou recomendar uma solução de compromisso com o Governo grego.
Paris e Berlim têm também essa consciência, razão pela qual Hollande e Merkel têm estado na primeira linha a pressionar por um acordo com o Governo do Primeiro-Ministro Alexis Tsipras, que procura evitar a situação de ruptura, mas não pode fazer muito mais concessões sem correr riscos domésticos. Por outro lado, durante um dos últimos picos da prolongada crise com os seus parceiros europeus, Tsipras visitou Moscovo, onde manteve longas conversações com Vladimir Putin. Conversações de que resultaram mais especulações do que informações. Entre as especulações possíveis, depois de os dois homens terem afastado a hipótese de um financiamento russo – o que não significa que assim seja – surge a de a Grécia estar a contar entre as suas opções, no caso de um abandono da eurozona ou até da União Europeia, com uma conexão ao grupo euro-asiático, que Putin procura pôr de pé, em oposição ao bloco económico europeu.
Para todos os efeitos, a crise excessivamente prolongada com a Grécia tem de ter um final que traga estabilidade financeira à eurozona e aos sacrossantos mercados que determinam desastrosamente a política. Na aparência, um acordo qualquer que evite uma ruptura no final deste mês por a Grécia não pagar ao FMI não parece estar tão difícil, após as concessões feitas por Atenas. Há demasiados actores a falar ao mesmo tempo e ninguém acaba por ouvir bem.
Uma saída da Grécia está a ser preparada pelo Eurogrupo, mas a Grécia também tem a sua estratégia e de momento ninguém do aparelho político da União Europeia quer ver uma deriva de Atenas. Outra é a posição dos tecnocratas de Bruxelas, do Banco Central Europeu e em especial do dogmático FMI, que reconhece em relatório os erros cometidos, mas na prática os continua.
Ao mesmo tempo, o Pentágono estuda o pré-posicionamento de material de guerra nos países Bálticos, anteriormente parte da URSS, e em alguns Estados do Leste europeu, membros da OTAN depois de terem sido parte do Pacto de Varsóvia, designadamente, Polónia, Roménia, Bulgária e, possivelmente, Hungria, violando o espírito do acordo de 1997 entre a OTAN e a Rússia.