segunda-feira, 22 de junho de 2015

Grécia e ameaça de Putin


Benjamim Formigo |
22 de Junho, 2015

A crise grega está para ficar, depois de, no final da semana, os credores terem adiado para esta semana uma solução.
Enquanto o Eurogrupo se reunia sexta-feira e sábado em Bruxelas, Alexis Tsipras prorrogava a sua estada em Moscovo e as suas conversações com Vladimir Putin.
Os credores não conseguiram chegar a acordo com os gregos em Bruxelas, mas Alexis Tsipras e Vladimir Putin parecem ter concordado num novo traçado de gasoduto com o terminal situado na Grécia e, quem sabe, uma possível extensão no futuro.
Em primeiro lugar, é bom esclarecer que os patrões do euro passaram os últimos anos a transferir a dívida grega dos bancos privados, muitos deles alemães, para as instituições financeiras internacionais, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e outros órgãos ligados à Comissão Europeia.
Isto significa que, se a Grécia não pagar, se decidir abandonar o euro e, eventualmente, até a União Europeia, as instituições financeiras privadas não vão perder um cêntimo, porque a dívida aos privados foi paga com empréstimos institucionais.
Portanto, a Grécia deve aos contribuintes europeus, que foram metidos neste filme com a finalidade de “salvar” os bancos comerciais de problemas sérios.
Em segundo lugar, não é evidente que Atenas e os gregos tenham a perder com uma saída do euro ou mesmo da União Europeia.
Se os gregos resolverem dizer que não pagam nem têm medo de ninguém e, calmamente, forem introduzindo o velho dracma (antiga moeda grega) no sistema financeiro, a única coisa que as instituições credoras – o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e a União Europeia podem fazer é fechar a torneira à economia grega, desvalorizar brutalmente o dracma e cortar o crédito institucional. Isto não significa que as instituições financeiras privadas façam o mesmo.
Em terceiro lugar, a economia grega não depende substancialmente de exportações, excepto, claro, o turismo considerado como tal, e portanto o impacto nos gregos pode não ser mais dramático do que a austeridade adicional que se lhes pretende impor.
Claro que nem tudo é assim tão linear, mas a tese ganha corpo entre muitos economistas europeus, incluindo alemães.
Um terminal de gasoduto russo junto de um porto grego é mais um acesso de Moscovo ao Mediterrâneo. É mais um ponto de venda do gás russo e, porventura, uma alternativa de distribuição de gás à Europa através do flanco Sul, beneficiando alguns países que não integram a União Europeia e não estão ligados ao gasoduto que atravessa a Ucrânia e dá à Alemanha e seus vizinhos o combustível que tem cuidadosamente sido mantido fora das sanções impostas pelos Estados Unidos e a União Europeia, apesar da relutância de Berlim.
Evidentemente que a Grécia beneficiaria financeiramente dessa infra-estrutura e as indústrias de ambos os países beneficiariam com a sua construção.
Mas como em política não há coincidências, os encontros russos, a forma como Tsipras ignorou ostensivamente a reunião do Eurogrupo (a que não tinha protocolarmente de estar presente) para prorrogar as suas conversas com Vladimir Putin, dão que pensar.
Talvez a  Rússia não esteja com os problemas financeiros que o Ocidente pretende fazer crer.
A resposta de Moscovo à intenção norte-americana de reforçar o flanco Norte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e os arsenais posicionados na Europa Central, nos antigos países do Pacto de Varsóvia, foi algo demolidora.
O Presidente Vladimir Putin anunciou a modernização do arsenal nuclear russo e um investimento de centenas de milhões de dólares em armamento convencional.
Este tipo de anúncios por parte de Moscovo surgem normalmente quando a sua industria de defesa já está em movimento.
Por outro lado, tal como com nos Estados Unidos, o estímulo da indústria militar tem repercussões no relançamento da economia e do crescimento.
Mas uma coisa os russos podem ter por certa: as sanções não são eternas e a situação de crise económica na Europa pressiona o seu levantamento, muito em especial o impacto quem têm na economia alemã, onde as exportações para a Rússia representam uma fatia não negligenciável.
Correndo o risco de nos repetirmos, a dívida grega tornou-se uma questão geoestratégica e a Alemanha é um dos principais interessados. Ângela Merkel só espera um sinal grego que permita salvar a face a todos os envolvidos, os mais radicais dos quais são curiosamente os que mais sustentam as posições de Berlim, e começam a tornar-se um incómodo.
Berlim, como Bona no tempo da República Federal da Alemanha (RFA) e da República Democrática Alemã (RDA) não quer o seu território envolvido no teatro de operações europeu.
Kiev já recebeu de Angela Merkel os recados suficientes e sabe que a Ucrânia passou a ocupar o duvidoso estatuto de tampão face a uma propalada ameaça russa, como se estivéssemos a regressar ao “hard core” da Guerra Fria.
Mas ainda permanece um problema que Berlim quer ver resolvido: a amortização da dívida grega e a permanência da Grécia na União Europeia. Mas a aproximação de Atenas a Moscovo parece um facto consumado com o Governo de Alexis Tsipras.