24 de Fevereiro, 2015
Longe vão os tempos em que os portugueses se orgulhavam dos
seus feitos, pelo menos os recentes. Uma ditadura de 40 anos, uma
politica colonial vergonhosa, um “orgulhoso” isolamento internacional
caíram num dia em que a morte saiu à rua com a convicção da sua
desnecessidade.
Parece de facto que se passou uma eternidade. Se olharmos para trás porém decorreram uns meros 40 anos, o tempo para uma geração ambiciosa de poder galgar por cima de tudo e todos, atropelando os mais elementares princípios com o objectivo único de ter poder e dinheiro.
Português por nascimento estou à vontade neste escrito, não estou a ingerir nos assuntos de outro país, estou a falar daquele onde nasci. Os últimos quatro anos têm sido para os portugueses um pesadelo. O Serviço Nacional de Saúde de que o país tanto se orgulhava tornou-se, passe o exagero, uma antecâmara da miséria. O sistema de reformas foi desfeito. O auxílio externo contratado, que rende fortunas às instituições financeiras que tiveram a sorte de se verem envolvidas, passou a determinar o que o país e o seu Governo eleito podiam ou não fazer. A independência nacional tornou-se subserviência aos mais poderosos. No plano internacional Portugal passou de país interventivo, respeitado no Conselho de Segurança da ONU a que pertenceu e presidiu várias vezes, a satélite da Europa rica.
O conceito da Europa nascido em 1951 com a Liga do Aço e do Carvão, uma aliança entre seis países que visava trazer a Alemanha para uma união solidária, resultou em pouco anos numa Comunidade Económica Europeia decidida a alargar-se numa zona de comércio livre e desenvolvimento. Foi a época de Alcide De Gasperi, Jean Monnet, Robert Schumann e Paul-Henri Spaak. Com o decorrer dos anos a Europa do Tratado de Roma rapidamente se estendeu à Europa dos Doze e dos Quinze nos anos 80. Havia um conceito económico nesta união e no seu alargamento, como é evidente, mas havia critérios de solidariedade entre Estados, a intransigente defesa do Direito, da Democracia. A Europa Económica ia-se fazendo acompanhar de uma Europa Social defendida por Jacques Delors, que muitos consideram ter sido o ultimo grande Presidente da Comissão Europeia.
Na mesma década de 80 do passado século cresciam na Europa, com a senhora Thatcher, e nos EUA com Ronald Reagan, as teses neoliberais. Na Europa continental Helmut Kohl, Genscher, Mitterrand, González, entre outros procuravam manter o “aquis social” da Comunidade para equilibrar o poder do capital e a sua influência. Ao nível nacional os partidos de direita rompiam com os frágeis princípios sociais. A sede do dinheiro subia ao mesmo tempo que os sindicatos perdiam a sua influência e poder e eram incapazes de se adaptar quando desemprego e desigualdades se tornavam cada vez mais horizontais. A esquerda social e politicamente correcta tomava de assalto princípios defendidos pela direita.
Acabou a Europa solidária.Quando oLehman Brothers desencadeou a crise financeira global a União Europeia foi, depois dos EUA, a mais afectada. Salve-se quem puder. Os bancos alemães foram determinantes na crise grega, Berlim agitou a bandeira da austeridade, acusou o Sul e em particular a Grécia de despesismo. Ao fim de anos de sacrifícios Irlanda e Portugal saem (?) da crise mas a sobreendividada Grécia continua com problemas. O FMI elabora relatórios políticos salientando que a austeridade não mata a bactéria mas o doente. Economistas de renome concorrem acusando a austeridade de não só a depressionar as economias da Zona Euro como a própria economia mundial. A procura caiu a pique e nem as manobras que empurram para baixo o preço do petróleo conseguem fazer a economia mundial arrancar.
Nunca após a Segunda Guerra Mundial a solidariedade entre países foi tão necessária. Surge então uma Alemanha intransigente defensora da austeridade mesmo quando se fala em crescimento. Os países bálticos que entraram no euro em plena crise e fizeram sacrifícios para isso, puseram-se ao lado de Berlim. Nada os obrigava a entrar na moeda única nesta fase. No Sul, Espanha e Portugal colaboraram com a Alemanha, a Irlanda mais discreta saiu quase incólume desta falta de solidariedade com a Grécia.
A Espanha, logo após a reunião, sacudiu a agua do capote. Maria Luís Albuquerque, a titularportuguesa das Finanças, pode agora dar entrevistas às televisões da sua escolha para desdizer o que se sabe ter feito – estar ao lado dos mais fortes, esquecer o dever de solidariedade.
A critica portuguesa não vem só da esquerda, mas do seu próprio partido. Muitos portugueses, entre os quais me incluo, sentem vergonha por 40 anos depois do 25 de Abril de 1974, quando grandes dificuldades tiveram de ser ultrapassadas, um ministro português deixar em aberto uma pergunta: que confiança oferece um país com tais ministros?
Além de parceiro na Europa, a Grécia é um aliado na OTAN e um dos aliados da primeira linha. E como a defesa da Europa, graças à austeridade, se tornou uma anedota, resta a solidariedade na OTAN. Resta? E se a Grécia resolver abandonar a Aliança Atlântica?