quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

O mandato de Obama e as relações entre Cuba e os EUA


Benjamim Formigo |
25 de Dezembro, 2014

Na fase final do seu mandato, falhadas as promessas e goradas as esperanças que o Mundo via na sua Presidência, Barak Obama reatou relações com Cuba.
Washington impusera um embargo de armas em 1958 que prejudicou mais o regime de Baptista que a revolução e Castro assumiu o poder um ano depois. Tentou uma aproximação a Washington que foi rejeitada por Eisenhower. Após vários incidentes e a aproximação de Havana a Moscovo as relações cada vez mais tensas agravaram-se com a nacionalização de refinarias de empresas americanas em Cuba. A 19 de Outubro de 1960 as sanções económicas, comerciais e financeiras foram impostas formalmente, exceptuando medicamentos e bens alimentares que só foram incluídos no ­bloqueio em Fevereiro de 1962. Meio século depois, o Presidente Barak Obama no final do seu mandato, já sem problemas de reeleição anunciou, após uma diplomacia discreta que envolveu o Papa Francisco, a normalização de relações entre os dois Estados.
Mais fácil dizê-lo do que fazê-lo. A troca de embaixadores e a abertura de missões diplomáticas vai ser porventura bem mais complicado agora que os republicanos controlam o Congresso e estão a dois anos das eleições.
Em Miami, na “Little Havana” (nome da área onde se juntam os cubanos), não houve buzinões de satisfação quando Obama surpreendeu com o seu anúncio. Desde a queda de Baptista que a direita cubana e o capital cubano se refugiou na Florida e se encontra regularmente naquele local. Hoje a maioria dos cubanos na Florida não são os da linha dura que entrou com a CIA no que foi o fracasso da invasão da Baía dos Porcos, nem nas múltiplas tentativas de Langley derrubar ou eliminar Fidel Castro. A maioria nem são refugiados políticos mas económicos.
Todos porém, pelo simples facto de terem fugido de Cuba, receberam estatuto de refugiados, muitos mesmo a nacionalidade americana e com ela o direito de voto.
Os poderes executivos de Obama têm limites e a troca de embaixadores tem de passar pelo Congresso onde além do radicalismo do grupo do “tea party” os republicanos, em geral, têm de ter em conta os 29 votos da Florida no colégio que elege o próximo Presidente, além claro dos lugares que estarão em disputa para o Senado e a Câmara dos Representantes. Assim, para alem dos motivos ditos ideológicos, os republicanos vão bloquear até ao limite as nomeações que Obama possa fazer ou as suas tentativas de aproximação com Cuba uma vez que a decisão do Presidente deixa às empresas toda a liberdade de lidarem com Cuba e eventualmente estas podem ser aliadas preciosas na prossecução do que Barak Obama iniciou.
A liberdade de viajar é um dos maiores trunfos e em simultâneo um risco. Como um risco será o confronto da realidade capitalista neoliberal que parece oferecer tudo. Resta obviamente esperar que os americanos não demorem outros 50 anos para reconhecer que as sanções contra a Rússia, o Irão e o que mais anda por aí não trazem benefícios. Como ficou claro, a diplomacia paciente é bem mais eficaz do que a política de canhoneira, mais rápida e aparatosa que os americanos durante décadas tanto gostaram e se reacendeu com Ronald Reagan e o seu “América is back”, para não falar dos disparates de George Bush (pai e filho, mas sobretudo filho), e das “coligações” que apoiaram quedas de Governos e mudanças de regime durante a chamada “Primavera Árabe” abrindo as portas à confusão deixando que grupos como o autoproclamado Estado Islâmico do Iraque e do Levante, o Boko Haram e outros façam a Al Qaeda parecer um coro dominical.