18 de Novembro, 2014
A crise financeira que atingiu e se mantém nos países
industrializados, conjugada com a capacidade dos Estados Unidos em se
abastecerem com crude obtido na exploração de regiões de xistos
betuminosos e a posição saudita de não cortar a sua produção ao mesmo
tempo que baixa os preços, levou o barril de petróleo bruto a cair de
100 dólares no Verão para menos de 80 dólares neste momento.
As análises e previsões dos vários analistas divergem por vezes, mesmo de forma contraditória, havendo quem sugira que a lei da oferta e da procura não se aplica de forma linear neste sector. Em termos factuais, a procura de crude caiu para valores extremamente baixos, se tivermos em conta os níveis da última década, e os preços seguiram a regra do mercado, descendo para valores que podem afectar as economias baseadas na exploração petrolífera. Os níveis de investimento do Estado, de um modo geral, desceram acompanhando a disponibilidade de divisas propiciadas pela receita do sector. No passado, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), quando se confrontava com essa situação, reagia com urgência reduzindo as quotas dos países membros, sendo o diferencial das receitas suportado pelo cartel.
Reunião da OPEP
Desta vez a organização está na expectativa e só dentro de uma semana, a 27 de Novembro, em Viena, terá a sua reunião de calendário, onde esta situação será analisada e eventualmente analisadas e propostas medidas. Ao contrário de outras indústrias, parar a produção ou reduzi-la não é apenas um abrir e fechar de torneiras, tem custos elevados que normalmente seriam divididos pelos doze membros do clube. Desta vez porém existem factores políticos que levam o maior produtor da OPEP a não só não cortar a produção como a descer os seus preços.
Com preços abaixo dos 80 dólares o barril, para os sauditas trata-se de uma estratégia de risco que visa colocar fora do mercado uma parte dos produtores americanos, para quem um preço inferior, durante um período prolongado, se traduz no encerramento das explorações nas regiões mais inóspitas, onde não só o custo de extracção é elevado pela tecnologia como pelo transporte.
Tornar essas explorações de petróleo a partir de xistos betuminosos economicamente inviáveis é um risco que tanto a banca como os próprios produtores previram e por isso têm procurado controlar a tecnologia, encontrar regiões onde mesmo cara a extracção se mantenha rentável e os distribuidores a desenvolverem uma rede de “pipe-lines” que baixem o custo da distribuição, ao mesmo tempo que na sua construção criem novos postos de trabalho, aumentando as receitas do Estado e estimulando o mercado. A presente ameaça é ao mesmo tempo um estímulo para manter ao mais baixo nível possível a dependência dos EUA de produtores estrangeiros.
O caso saudita é paradigmático de um país que está a manter o nível do investimento do Estado e das despesas do Estado mesmo com a redução de receitas recorrendo às suas imensas reservas de divisas. Do outro lado da equação coloca-se a posição dos países compradores que no passado reduziram as suas necessidades de petróleo bruto através da adopção de novas tecnologias menos sedentas de energia. Todavia, a manter-se a situação, esses países, o mundo desenvolvido, vê-se também atingido nas suas exportações pela quebra das receitas dos produtores e dos lucros das petrolíferas. Qualquer tentativa de antevisão do que pode suceder, perante a divergência e as contradições dos analistas, é um mero exercício especulativo.
A quebra dos preços tem um incentivo que atinge os países industrializados. Em muitos países, como Angola, a importância do petróleo na economia, sendo muito significativa, tem vindo a decrescer com o desenvolvimento do sector primário e até do secundário.
Angola tem o potencial de regressar ao grupo dos maiores produtores de café, sisal e outras matérias exportáveis. Tem um potencial agro-pecuário longe de estar aproveitado e o seu potencial pesqueiro vai subindo progressivamente. Desde o final da guerra, após o primeiro esforço de reconstrução centrado nas vias de comunicação, o desenvolvimentoagro-pecuário iniciou-se e começou um processo de facilitação das comunicações entre as regiões propícias à agricultura e pecuária, designadamente nas províncias do Huambo e Huíla, ricas em terrenos férteis e onde já existiu um sector primário consideravelmente desenvolvido. O Cunene tem potencialidades pecuárias já comprovadas, mesmo durante o período de conflito armado. O principal problema a Sul é a proximidade e permeabilidade da fronteira, que convida ao pastoreio do gado a caminho da Namíbia, onde depois é vendido a preços demasiado baixos e de onde muitas vezes depois de abatido é exportado para Angola como produzido do outro lado da fronteira.
Pescas e sector mineiro
As pescas têm uma imensa potencialidade ao longo de toda a costa, com especial destaque para Benguela e Namibe, contudo levanta-se a necessidade de redimensionar e modernizar nalguns casos a rede de frio, permitindo um escoamento mais tranquilo para o interior. O sector artesanal pesqueiro traz diariamente a Benguela toneladas de peixe que ou é secado ou transportado em veículos demasiado pequenos para o interior, impedindo uma descida do seu preço e limitando até a diversidade das capturas. O turismo é outro dos sectores de enorme potencialidade.
A dinamização de parques naturais, desde o Cuando Cubango ao resto o país, torna esta indústria num sector concorrente dos países vizinhos e mesmo mais se a província do Namibe visse classificada pela UNESCO a sua riqueza natural que recua milhões de anos no tempo.
Em paralelo, a exploração sustentada de madeiras acompanhada da transformação e estilização colocariam o país numa posição invejável. Os estudos existem e os incentivos precisam de ser totalmente aproveitados. Claro que, em simultâneo, o sector mineiro pode sofrer uma expansão incalculável com o arranque de outros sectores além do diamantífero.
Angola porventura é o país que menos tem a recear de uma queda do preço do petróleo, não só pelas potencialidades dos restantes sectores naturais como pelos números macroeconómicos, hoje ainda muito ligados ao sector petrolífero.
O mais prejudicial a Angola são as empresas fantoche que se foram instalando, designadamente portuguesas, mas não só, no sector da construção. Empresas que servem apenas para conseguir ou promover empreendimentos que, por não terem nem mão-de-obra nem equipamento, subcontratam a outras estrangeiras mão-de-obra barata, fogem ao Fisco e ao pagamento da Segurança Social. A subida do investimento mínimo para um milhão de dólares americanos foi uma medida que veio travar e complicar essas empresas fantoches que nada acrescentam à economia angolana.