terça-feira, 4 de novembro de 2014

O neoliberalismo e a segurança nacional



4 de Novembro, 2014

Os europeus já no tempo da Guerra Fria fatiavam o orçamento da Defesa contando com o escudo norte-americano para a defesa da Europa. Simplesmente nesse tempo a Europa era mesmo essencial à Segurança dos EUA. Era o teatro de guerra avançado entre EUA e URSS numa tentativa de, em caso de conflito, ele não escalar para a guerra nuclear.
A Segurança Nacional de um país torna-se Segurança Regional quando um conjunto de países se regem por normas específicas obrigando-se, ou sendo obrigados, a cumprirem quesitos que debilitam a capacidade de mater o controlo sobre os seus sectores estratégicos da economia, facilitando ao adversário potencial influência sobre os mesmos e a obtenção de informação vital através do controlo estrangeiro de áreas estratégicas.
Uma situação que se agrava quando a Defesa Nacional – ou Regional – vive na dependência de regras financeiras impostas do exterior, ou pelo exterior, e é desorçamentada em função de regras não nacionais. O caso mais evidente e preocupante é o que vive a União Europeia e a OTAN numa época de incapacidade não só de identificar o seu adversário/ameaça, como de manter relações distendidas com um dos seus principais parceiros comerciais: a Rússia.
A situação que se vive, em especial desde o início deste ano, não sendo ainda preocupante, deve ser objecto de uma reflexão interna mas também por parte dos Estados fora dessa área e que têm com ela relações económicas e financeiras importantes.
O espectro de uma nova Guerra Fria não é de pôr de parte e, para evitar ser apanhado neste fogo cruzado, assumem especial importância os organismos regionais e até o renascimento do Movimento dos Não-Alinhados, que não pode ser apenas ressuscitado, mas recriado a partir da nova conjuntura internacional, dos interesses em jogo e da nova ameaça. Sempre porém sob o prisma de Segurança Nacional e não meramente de Defesa Nacional (ou regionais).
Depois da queda da URSS, os adversários do comunismo clamaram vitória numa guerra onde sofreram apenas os povos e os países do Terceiro Mundo e enriqueceram os do Primeiro Mundo, enquanto a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas caminhava para a desagregação que a falta de visão de Boris Ieltsin precipitou ao desfazer-se da Confederação de Estados Independentes, o salto em frente de Mikhail Gorbatchov. Ieltsin tornou-se o herói do momento e a economia russa (soviética), já exausta pela má gestão e pela pressão a que os Estados Unidos obrigavam no sector da Defesa, quase entrou em colapso. Goste-se ou não de Vladimir Putin, o homem que veio do KGB, a economia russa, mesmo envolta em corrupção e algum desperdício, levantou-se e veio reclamar o seu estatuto de superpotência, quando a China estava no mesmo caminho. O capitalismo abraçado pelo Kremlin não caiu na desregulamentação que a União Europeia abraçou, deixando a regulamentação aos mercados, criando uma moeda única que favorecesse e facilitasse as trocas comerciais, em especial no mercado interno. Para a sobrevivência da moeda única os europeus tiveram de se sujeitar a um conjunto de regras que com o tempo atingiram a obsolescência, designadamente a capacidade de se endividarem. Quanto menos dinheiro fosse investido nas dívidas soberanas, mais ficava disponível para os mercados financeiros e a iniciativa privada. Sem dissertar sobre um assunto e deixando muito por dizer, a verdade é que a primeira baixa, a mais fácil e politicamente mais vendável ao eleitorado, foi o orçamento da Defesa. Para quê manter serviços militares obrigatórios se a ameaça soviética já era? Para quê investir em material de guerra se não havia inimigo? Inacreditavelmente nunca se reflectiu seriamente sobre a ameaça ou ameaças não só à Defesa como à Segurança Nacional.

Guerra Fria


Os europeus já no tempo da Guerra Fria fatiavam o orçamento da Defesa contando com o escudo norte-americano para a defesa da Europa. Simplesmente nesse tempo a Europa era mesmo essencial à Segurança dos EUA. Era o teatro de guerra avançado entre EUA e URSS numa tentativa de, em caso de conflito, ele não escalar para a guerra nuclear, muito embora nenhum dos lados excluísse o recurso às armas nucleares tácticas, fossem os mísseis de médio alcance, as ogivas da artilharia ou os mísseis ar-terra lançados a partir de aeronaves tácticas de ataque ao solo.
O historiar da Guerra Fria e da posição dos diferentes actores não caberia num artigo de jornal, porém é importante recordar que mal Berlim foi ocupada por tropas soviéticas, pondo termo à II Guerra Mundial, os antigos aliados de ocasião, por entre sorrisos e palmadinhas nas costas estavam já a fazer a cama uns aos outros, ou seja soviéticos de um lado e americanos, franceses e ingleses do outro. A formação da NATO foi a formalização dessa aliança anti-soviética como a ocupação/criação de Estados satélites entre a Alemanha dividida e a fronteira soviética (que incluía a Ucrânia) deu origem ao Pacto de Varsóvia. Os dois blocos defrontaram-se um pouco por todo o Mundo, designadamente em África, numa estratégia de confronto indirecto onde morriam os outros. Ninguém sabe na realidade quantas pessoas morreram na Guerra Fria nem os prejuízos financeiros, culturais e desenvolvimentistas causados.
Após a queda do Muro de Berlim, faz agora 25 anos, a União Europeia lançou-se não só na criação de uma moeda única como numa expansão que engoliu um por um os antigos países do bloco de Leste, perante uma quase passividade de Moscovo que termina com Putin a traçar a linha na Ucrânia, colocando a linha da frente da UE e da OTAN a mil quilómetros das suas fronteiras. Os acontecimentos deste ano deram a machadada quase final (ainda estamos para ver) na pouca confiança de Putin nos dirigentes europeus e, em particular, em Barack Obama.
Ronald Reagan, odiado ou adorado, foi sem dúvida um dos Presidentes dos EUA que mais hostilizou a URSS. Profundamente anticomunista, ignorante, o que quiser(mos) chamar-lhe, Reagan ao sentir intuitivamente a mudança na URSS com a morte de Brejnev, a subida de Yuri Andropov (um homem vindo da direcção do KGB para a liderança do Politburo), as mudanças subtis que este introduziu no partido e no Estado e que resistiram após a sua morte, ao também breve consulado de Konstantin Tchernienko, não lhe passaram despercebidas, nem a ele nem à Sr.ª Thatcher. Quando Mikhail Gorbatchov subiu ao poder Ronald Reagan não só pediu à então PM britânica que explorasse os contactos que fizera com Gorbatchov durante uma visita deste à Grã-Bretanha, apenas como membro do Politburo (Tchernienko morreu durante a visita de Gorbatchov), como chama académicos conhecedores da cultura russa para se esclarecer. Ronald Reagan, de quem se dizia, talvez com justeza, que tinha mais cavalos que livros, ouviu e absorveu o que lhe diziam sobre a cultura russa e a mentalidade russa, história, etc. Assim se explica os sucessos que foram os encontros entre Reagan e Gorbatchov nessa década de 80.
Os jovens neoliberais de Bruxelas, muitos acabados de sair das escolas e designados por razões partidárias em detrimento da “sagesse” dos Velhos, que aconselham e preparam os dossiers para os seus chefes, nem por um minuto pensam nas consequências de ferir o urso russo. Para eles a Rússia está de rastos, necessita de vender o seu petróleo e gás natural à UE e, por isso, engolem o que Bruxelas quiser. Curiosamente foi a Sr.ª Merkel, a fundamentalista do défice, quem travou um pouco os ímpetos e se manteve sempre em diálogo com o Presidente russo Vladimir Putin. Precisamente porque a Ângela Merkel, crescida na Alemanha do Leste, não são estranhas a cultura e a sensibilidade russas. A passada semana, por entre toda a tensão Leste-Oeste, foi assinado em Genebra um protocolo que garante à UE e à Ucrânia a continuação de fornecimento do gás e petróleo russos.

Incidentes

À mesma hora provavelmente a aviação russa entrava quase em simultâneo no Báltico e no Mar Negro. Desta vez não eram só os velhos Tu-95 escoltados pelos modernos caças MiG-31 e acompanhados de aviões de reabastecimento Il-78 obrigando a Suécia, Noruega e Finlândia, primeiro,  a fazer descolar os seus caças para interceptarem as aeronaves russas e garantir que não entravam nos espaços aéreos dos respectivos países – o que nunca tentaram fazer – e depois a RAF britânica a descolar para escoltar uma parte desta frota finalmente interceptada pela Força Aérea Portuguesa que os escoltou de regresso a Norte. Em simultâneo a Força Aérea Turca teve também de fazer descolar os seus interceptores dada a presença dos bombardeiros estratégicos Tu-95 perto do seu espaço aéreo. A manobra repetir-se-ia três dias seguidos. Não se trata de um incidente inédito, todavia nunca havia envolvido tantos efectivos nem se havia verificado tantas vezes num espaço de tempo tão curto. As incursões russas desta vez foram ao ponto de alguns dos aviões desligarem os “transponders” (sistema de sinalização) e manterem silêncio rádio inclusive ignorando as chamadas dos interceptores da OTAN.

A Rússia e as sanções

Em paralelo com o desafio militar Moscovo dá não só todos os sinais de não sentir as sanções europeias como manifesta a sua indiferença a novas sanções ao apoiar os referendos nas regiões russófonas e reconhecer os resultados.
Vladimir Putin, antes criticado pelos russos, atingiu a semana passada 80 por cento de aprovação e a sua imagem aparece em t-shirts como um super herói roubado ao imaginário da BD americana. A UE limita-se a ver e aparentemente a não entender a mentalidade e o patriotismo russos.
Ameaça claro que foi, ameaça real nem por isso, antes um teste à prontidão dos sistemas europeus e à sua capacidade de resposta. Os russos ficaram a saber quem responde, com quê e quanto tempo demora a responder, para não falar no teste que foi à capacidade e eficiência das comunicações entre forças da OTAN de nacionalidades diferentes.
Um teste mais completo e os russos teriam o mapa das insuficiências militares provocadas pelos cortes nos orçamentos da Defesa. Os europeus em média gastam dois por cento do PIB na Defesa, um número distorcido já que a Grã-Bretanha, Grécia e outros gastam bem mais que os dois por cento, mínimo acordado com os EUA. O mercado não consegue regular estas crises. Os cortes cegos na Defesa expuseram a Europa a qualquer adversário se os Estados Unidos não se empenharem na defesa europeia.
Mais do que isso, as privatizações dos sectores das telecomunicações, energia, água, transportes, etc... dão ao adversário uma ideia muito precisa da actividade económica, da situação industrial e o controlo das comunicações, a capacidade de sabotar os sistemas de energia e água. O sector dos transportes é vital em caso de crise ou conflito, a sua privatização permite controlar os fluxos e conhecer os conteúdos. Afinal fez-se tanto barulho por causa de umas escutas da NSA e da CIA quando sectores estratégicos em muitos países estão nas mãos de privados e alguns de estrangeiros. Mercado dixit. As consequências depois se resolverão... ou não.