1 de Outubro, 2014
Na Ucrânia a guerra não foi (é) transfronteiriça, mas sim um confronto de vontades com a Rússia e a saída está a ocorrer, parece, de uma forma natural, por si mesma, com a existência de uma zona desmilitarizada (ZDM) entre o Leste do país, russófono, e o resto da Ucrânia. O futuro dirá onde conduzirá essa autonomia e essa ZDM, de facto um tampão entre duas culturas do mesmo país.
No Iraque levanta-se a grande incógnita. Os Estados Unidos procuraram cooptar e conseguiram o apoio tácito ou activo de vários Estados árabes e dos seus parceiros da OTAN. Uma excepção notável a distanciação da Turquia que obriga os americanos a operar a partir de porta-aviões ou de bases distantes em países do Golfo em vez de Incirlik, a base mais usada nas guerras do Golfo.
A Turquia negociou com o auto designado “Estado Islâmico” a libertação de cidadãos seus e tem uma extensa fronteira com a Síria e o Iraque, notavelmente o Curdistão iraquiano. O envolvimento turco ao lado da oposição síria armada coloca Ancara numa situação incómoda, já que uma boa parte dessa oposição deserta para se juntar às forças do “Estado Islâmico”, o movimento radical que quase derrubou o Governo de Bagdad, derrotou o Exército iraquiano apoderando-se de sofisticado material de guerra fornecido pelos Estados Unidos. A França seguiu no encalço dos EUA, apressando-se a atacar alvos o EI a partir de porta-aviões; Bélgica e Dinamarca anunciaram o envio de caças F-16 sem especificar onde irão estacionar; a Grã Bretanha, depois de consultado o Parlamento, fez entrar em acção, para já de reconhecimento, os seus Tornados estacionados nas bases que mantém em Chipre, enclaves territoriais na costa Sul da ilha que Londres recusou entregar à soberania cipriota quando cedeu a independência a Chipre. Os Emiratos Árabes Unidos agiram já contra o “Estado Islâmico” tal como outros Estados árabes, mas as correntes operações estão longe de uma coligação como a que em 1990 foi estabelecida para a guerra contra o Iraque.
A questão de fundo é o que pretendem EUA e os seus aliados no final desta intervenção. Não se conhece uma estratégia de saída. Atacar as forças do “Estado Islâmico” pode parecer louvável quando se fazem em defesa de populações que fogem aos milhares procurando refúgio na Turquia. É um facto que o movimento que se intitula “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é o grupo mais brutal que alguma vez actuou naquela região e o que mais estrangeiros recrutou, designadamente europeus e americanos, numa aparente conversão a um Islão brutal repudiado pelos imãs em geral. A Al Qaeda parece um grupo de meninos de coro ao lado do EI. As decapitações de europeus e americanos gravadas em vídeo e difundidas são apenas uma pequena parcela da mentalidade desse grupo. Ao conseguirem deitar a mão a bastante material de guerra americano que equipava o Exército iraquiano tornou-se imparável no seu avanço. Esse ímpeto ofensivo atraiu muitos dos opositores ao Presidente Assad da Síria que militavam noutros grupos. Alguns com ligações à Al Qaeda engrossando os seus efectivos para cima de quatro mil homens.
Os ataques aéreos que se irão intensificar podem impedir o avanço das forças do EI que agem como um exército convencional desde que possuem armamento pesado e blindados. Podem limitar a acção do EI mas não conseguem derrotá-lo no terreno. Os curdos, mais do que o Exército iraquiano, têm conseguido com o apoio aéreo conter algumas ofensivas convencionais do grupo. O guerreiros curdos conseguiram mesmo alguns avanços territoriais no Iraque para suster o EI fora do Curdistão, mas na prática o facto é que o Curdistão iraquiano aumentou o seu território, uma questão para debater no final. Um final que ninguém antevê como vai ser. David Cameron nos Comuns deixou claro que é uma campanha para anos. Ninguém tem uma ideia clara do que fazer no final desta campanha, apenas a decisão de que o auto denominado “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” é um perigo real, claro e presente e que não pode continuar a dominar territórios, a controlar zonas petrolíferas e refinarias, a financiar-se através da comercialização do petróleo no mercado negro.
A presente crise põe em destaque a necessidade de abordar a situação de uma forma global. Desde o diálogo de Israel com a Autoridade Palestiniana e o fim dos ataque indiscriminados que ainda recentemente Israel levou a cabo, até a uma aproximação ao Irão com quem é necessário dialogar e integrar na política regional. Não é realista manter à margem uma potência regional, ainda por cima quando parece disponível a debater o seu programa nuclear. O petróleo da Arábia Saudita ou do Qatar tem feito fechar os olhos aos financiamentos sauditas a grupos radicais. A Rússia tem uma palavra estratégica na região. Não se vê em lado algum a consideração de todos estes factores. Como ninguém tem uma proposta para o dia a seguir, é bom ter presente que EUA, França e Grã-Bretanha foram o apoio aéreo das forças que derrubaram Kaddhafy. Hoje, graças à ausência de uma estratégia a Líbia está o que se sabe.
Os países ocidentais em geral, os EUA em particular, têm de tomar consciência de que mesmo sendo potências militares e ou económicas estão em declínio e o Mundo deixou de ser fácil de gerir. Os problemas enfrentados no Médio Oriente têm soluções geracionais e se não forem encarados como tal entraremos num ciclo vicioso de soluções falsas e envolvimentos militares na resolução de novos problemas.