24 de Setembro, 2014
Em Dezembro de 2013 registou-se na Guiné Conakry o primeiro caso de Ébola após algum tempo de ausência desta doença em África.
Nenhuma outra epidemia se espalhou tão rápida e letalmente como este surto de ébola que um responsável dos Médicos Sem Fronteiras, únicos no terreno desde o início, afirmou à BBC estar a ficar fora de controlo. E a contagem de mortes não parou nem se antevê um fim. Os 66 casos confirmados na RDC parecem, segundo os técnicos, não estar relacionados com o surto da África Ocidental.
O espantoso não é que o ébola se tenha propagado tão rapidamente. É que a comunidade internacional tenha ignorado a epidemia que se espalhava rápida e letalmente. Claro que no momento em que se tornava evidente que a situação estava fora de controlo surgiram as promessas e as grandiloquentes declarações públicas. Barack Obama anuncia urbe et orbis que os EUA vão enviar para a Libéria cinco mil militares dos serviços de saúde para construírem centros de atendimento, isolamento e formarem pessoal. Cuba havia enviado para a zona centena e meia de médicos e enfermeiros pouco depois do surto começar.
O Conselho de Segurança da ONU reúne de urgência para pela terceira vez na sua história debater uma crise provocada por uma epidemia. Anteriormente havia-o feito em 2000, depois de o embaixador dos EUA na ONU perder sete meses a convencer os seus parceiros de que a SIDA deveria ser objecto da atenção mundial e que o Conselho de Segurança deveria adoptar uma Resolução considerando a pandemia da SIDA como um “factor de risco considerável para a estabilidade e segurança”. Em 2011 a instância aceitou reconhecer os efeitos sociais devastadores desta doença. Desta vez a Resolução 2.017, subscrita por 131 países, considerando a epidemia de ébola uma “ameaça à paz e segurança” foi aprovada por unanimidade. Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU, afirmou ao CS que o número de pessoas infectadas duplicava cada três semanas e que a ajuda necessária é vinte vezes superior à actual.
Como as palavras são fáceis e as promessas também, em papel, existe compromisso de ajuda de toda a comunidade internacional, mais de mil milhões de dólares prontos a serem canalizados para combater a epidemia. Estamos cá para ver quanto é que os países desenvolvidos vão de facto doar, quando e como.
A epidemia que só afecta, por enquanto, a Guiné Conakry, Senegal, Serra Leoa, Libéria e não se sabe bem até que ponto a Nigéria, tem na região terreno fértil para se propagar dadas as condições de insalubridade, falta de técnicos, instalações, formação e meios financeiros. O facto é que nestes países não houve um investimento significativo em Saúde, Educação e infra-estruturas sanitárias. Mesmo na Nigéria, o país mais rico da região, as falhas são imensas por falta de investimento. Estaremos perante uma crise pandémica de extrema gravidade,uma catástrofe humanitária, mas também uma crescente crise social e de desenvolvimento. Estimativas do BAD (Banco Africano de Desenvolvimento) apontam para uma queda do Produto Interno Bruto dos países atingidos – sem contabilizar a situação na Nigéria – na ordem de pelo menos 2,5 por cento este ano.
Os peritos internacionais e os MSF (Médicos Sem Fronteiras) que se encontram no terreno sustentam que a crise está a ir longe demais e que sem uma vacina não será possível combater consequentemente o vírus. Debelar esta epidemia será apenas evitar um desastre humanitário maior. Sem uma vacina, sem educação e formação, sem meios técnicos os soros que afinal existem no mundo desenvolvido sob a forma experimental podem atacar apenas o flanco curativo, o que significa perda de vidas. A vacina que se encontra, ao que se sabe, em desenvolvimento nos EUA e na Grã Bretanha está a ser usada a título experimental em seres humanos. Os laboratórios que a estão a investigar e desenvolver, além da Universidade de Oxford e outros centros de investigação, muitos dos quais em apoio ao sector privado, têm garantida uma receita substancial se a vacina chegar. É de admitir que as primeiras vacinas sejam pagas pela ajuda internacional e não é cinismo dizer que os interesses financeiros serão grandes mesmo passada esta crise. Há que contar ainda com o problema de outros primatas serem susceptíveis ao vírus de Marburgo e a contaminação regressar se no âmbito conservacionista se não procurar a inoculação dos animais em paralelo com a construção se sistemas sanitários, centros de despistagem e internamento, etc.
Para já fiquemos à espera do cumprimento das promessas.