segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Uma avaliação fraca e tardia


Benjamim Formigo |
11 de Agosto, 2014

O recomeço dos bombardeamentos norte-americanos no Norte do Iraque não devem ser encarados como uma mera acção de força de uma potência que vê em si mesma como o “policia do Mundo”.
Todavia, a intervenção da aviação dos Estados Unidos pode ser considerada uma acção fraca, insuficiente e tardia para evitar duas tragédias, uma a humanitária outra o desaparecimento de um Estado: o Iraque.Os políticos e diplomatas norte-americanos estão sós e envolvidos nas contradições de quem avalia insuficiente ou erradamente as situações antes de agir.
Barack Obama, desde o início do ano, vem assistindo ao crescendo do grupo radical ISIS (Islamic State of Iraq and Syria - Estado Islâmico do Iraque e da Síria) que ocupa importantes cidades, uma atrás da outra, sem que Washington tenha outra atitude que não a procura de um entendimento tornado impossível.
Relutante a uma nova intervenção, o Presidente Obama, que fez uma carreira política opondo-se à guerra no Iraque assistiu à progressão dos rebeldes do “Estado Islâmico do Iraque e da Síria”, deixou que Mossul, a segunda cidade, entre outras cidades importantes, ficasse em poder do ISIS, que há duas semanas expulsou os curdos, lançando-se na tentativa de ocupação do Curdistão iraquiano.
Obama nada fez. Só quando estiveram em causa interesses norte-americanos o Presidente dos EUA autorizou as acções militares iniciadas no final da passada semana. A Casa Branca justificou-as também como uma tentativa de evitar uma tragédia humanitária.
O “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” já progrediu demasiado e muitos receiam que seja tarde perante uma comunidade internacional reticente e um Governo efectivamente sectário e incompetente em Bagdad.
As eleições e as democracias têm um contexto e a insistência nesse sistema - vê-se - está fora de contexto. A realidade é que não foi feita uma análise, uma avaliação cuidadosa do pós-guerra quando George W. Bush decidiu em 2003 invadir o Iraque. Já aqui escrevemos que terminar uma guerra é bem mais difícil do que iniciá-la.
O evasivo projecto de uma democracia do tipo ocidental no Iraque, a fórmula com que o Ocidente procura justificar as crises em que se embrulha e, simultaneamente, as razões últimas da intervenção, não é uma fórmula universal, sobretudo quando o sucesso depende da boa vontade e da boa fé das múltiplas facções historicamente antagónicas que estão no terreno.
O ISIS, que autoproclamou o Califado da Iraque e do Levante, controlando consideráveis faixas de território no Iraque e na Síria, nasceu após a invasão norte-americana de 2003 e foi crescendo e radicalizando-se em frente dos olhos de todos os intervenientes.
A sua luta pelo poder foi facilitada pelo sectarismo do actual Governo iraquiano do primeiro-ministro Nouri al-Maliki, já que o “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” por si só não teria o poder que conseguiu.
A desestabilização do Iraque traduziu-se, de facto, na inexistência de um Estado. Voltar a por as peças no lugar, não é só um problema de simples “tolerância e reconciliação”, como sustentam os políticos norte-americanos, deixados sós pelos aliados europeus, e pondo a nu a ausência de uma chamada Coligação na Guerra do Iraque.
As empresas com capacidade de investimento necessárias a uma estabilização social no Iraque não existem e, segundo o jornal “Financial Times” do fim-de-semana, as firmas Exxon-Mobil e a Chevron, entre outras petrolíferas, já encerraram ou estão em vias de encerrar a sua operação no Iraque.
A ironia é que os rebeldes do “Estado Islâmico do Iraque e da Síria”, um grupo de tal modo radical que nem a Al Qaeda o aceita no seu “franshising”, fortaleceram-se, enquanto opositores do regime sírio, lutando contra Bashar al Assad e beneficiando, directa ou indirectamente, dos apoios ocidentais à oposição.
Há um ano, O Presidente Barack Obama queria bombardear Assad, hoje bombardeia no Iraque os que se opõem a Assad na Síria. Em paralelo, é pouco claro o desenvolvimento da situação política e militar no Afeganistão, onde o poder central vai enfraquecendo. O Afeganistão foi outro erro de avaliação, ou de uma sucessão de erros de avaliação, que passaram pelos ataques de drones contra os talibãs em território paquistanês.
A posição face a um Irão que se tem distanciado destes movimentos é um outro erro de avaliação. Mas o pior de todos, é o do interesse e da utilidade da Rússia na situação instável do Médio Oriente.
Para terminar os erros de avaliação, temos a “luz verde” dada ao Exército israelita para uma resposta desproporcionada ao Hamas, um grupo que militarmente é quase nulo, sem outro apoio internacional que não seja o que vem do Qatar.
Israel vive da boa vontade da comunidade internacional, mas o Hamas subsiste cada vez que o Estado hebreu reage de uma forma desproporcionada. Ambos, palestinos e judeus têm direito ao seu Estado. Israel tem toda a capacidade de se defender militarmente, o que é diferente de ter assegurada a segurança nacional, já que essa depende também dos seus países vizinhos.
As razões aduzidas pelo Hamas, a da existência de um porto de mar, justificam-se para que Gaza não viva na dependência de Israel e do Egipto, mas com o Hamas as preocupações israelitas sobre esse porto também se podem justificar.
Israel só teria a ganhar com a existência de um Estado Palestino, onde os radicalismos pudessem ser moderados pelo desenvolvimento e não exacerbados pela miséria e perseguição a que estão votados.
Os erros de avaliação pagam-se caro, mesmo a longo prazo.