segunda-feira, 16 de junho de 2014

As crises de Verão em Portugal


Benjamim Formigo |
16 de Junho, 2014

Depois de décadas em que o Abril em Portugal era um lema da propaganda política e turística, acontecido que foi em 1974 um Abril em Portugal, tudo se deslocou para o período estival.
Falta provavelmente de tema ou desígnio insondável, Portugal passou do ameno Abril para os Verões quentes e o tal Verão quente de 1975 parece ter sido o primeiro.
Passados uns anos sobre esse Verão já longínquo, quando o confronto militar interno e uma eventual intervenção externa assombraram as noites, a normalidade parecia ter regressado. Até ao ano passado, com a “demissão irrevogável” de Paulo Portas, hoje vice-Primeiro-Ministro e uma intervenção presidencial condenada ao insucesso.
Este ano, quando o Verão se afigurava mau para o Governo, após as europeias que davam menos à coligação que ao PS, a liderança socialista vencedora do sufrágio é posta em causa por dentro, por António Costa, presidente da Câmara de Lisboa, onde venceu com maioria absoluta sem necessitar do apoio do secretário-geral socialista.
As últimas autárquicas em Portugal foram a primeira demonstração muito clara de descontentamento do eleitorado com as lideranças dos partidos – excepção talvez Paulo Portas (muito à minha direita politicamente, mas sem dúvida “o” animal político e “a” imagem de seriedade) – e a sua forma de fazerem política. Se Lisboa e a maioria de António Costa foi importante, a clarificação deu-se no Porto, onde um “marginal” da partidocracia limpou as candidaturas partidárias com outra maioria incontestável. Incontestável, mas que dava que pensar.
A vitória socialista por uma escassa margem, face a um poder que está nos mínimos de popularidade, deixou antever a contestação surda que reinava dentro do PS. António José Seguro obteve a liderança do partido por controlar a máquina partidária que, com ou seu directas – não vale a pena perder muito tempo com isto – reduziu os grandes eleitores aos eleitos do chefe. António ganhou, mas nunca ficou seguro. Ao contrário, António Costa foi crescendo de popularidade, merecida pelo trabalho mostrado à frente do maior município português e também o maior círculo eleitoral.
Costa já recuara uma vez no confronto com Seguro e deixou que o líder gerisse a mediação presidencial do passado Verão. Desta vez, como disse o presidente do Município de Lisboa, a escassa margem de vitória soube a pouco. Costa limitou-se a por à vista a desilusão com a liderança socialista. António José Seguro, com imensas qualidades, falta-lhe uma chama, a garra política cada vez mais necessária num ambiente político sem ou com pouco carisma.
As lideranças políticas, mais uma vez excepção a Paulo Portas, não se tornaram conhecidas pelo seu trabalho no mundo real. Passaram das juventudes dos partidos para algumas empresas de amigos partidários, não conhecem o mundo real. Precisamente aquilo que não se pode dizer dos dois principais autarcas do país: António Costa, quanto mais não seja, tem o trabalho da cidade mais complicada do país no seu currículo, e Rui Moreira é um homem vindo do mundo empresarial habituado a arregaçar as mangas. Moreira, sem ter proximidades partidárias com Costa, mostra imensa sintonia com ele, e vice-versa. As próximas eleições, no outro Verão, vão ser de mudança, partidária ou de liderança.
António Costa deu o passo certo no momento certo. Rui Moreira está tão discreto que nem se vê, nem tem de se ver, é necessário apenas saber que ele existe. Se tivesse de apostar, diria que António Costa pode ser o homem certo no momento certo, embora num partido que, se não muda, será o errado. Assim vão os verões em Portugal.