Europa e EUA lançam confusão
Benjamim Formigo |11 de Março, 2014
Europa, ou seja União Europeia, e os Estados Unidos
conseguiram lançar através da Ucrânia uma confusão de repercussões
internacionais seja qual for o desenlace da cris.
A confusão que vai derivar do resultado desse referendo, seja ele qual for, e tudo indica que será favorável à secessão, vai desencadear um conjunto de acções que se irão repercutir não só geopoliticamente nas economias da Europa, da Rússia, dos EUA e da China, como nas economias emergentes que nos últimos seis meses foram ameaçadas quatro vezes. O referendo, a ganhar a secessão, irá levar os Estados Unidos a pretenderem impor sanções à Rússia. A proposta vai dividir os seus aliados europeus cujas economias, em fraca recuperação, estão profundamente ligadas à Rússia quer através da exportação de produtos transformados quer pela importação e dependência do gás natural da Sibéria.
A unanimidade entre os Estados-membros da União Europeia perante a eventualidade de sanções à Rússia será um verdadeiro milagre que surgirá depois dessas medidas serem reduzidas à ínfima espécie. Mas o milagre só será significativo se Putin ignorar os rugidos e não optar por uma escalada, ou por uma política de reciprocidade. A montanha irá parir um rato e Vladimir Putin sabe-o. Contudo se as sanções tiverem alguma expressão acabarão inevitavelmente por entrar no campo da energia ou no dos produtos alimentares, designadamente cereais as repercussões, sentir-se-ão bem para além das fronteiras europeias e russas.
Uma redução na compra de gás natural à Gazprom (a empresa estatal russa) ou, pior ainda, a imposição pelo Kremlin de limites à exportação de gás para a Europa irá causar uma onda de choque na recuperação europeia. As economias da UE fechar-se-ão às importações e na procura de fontes alternativas de energia poderão provocar subidas do preço do petróleo e do gás natural que serão contrariadas pela descida da procura em resultado de uma severa recessão que pode atingir os países industrializados para não falar da desvalorização das moedas. O dólar, dada a sua fragilidade, provavelmente não será uma moeda de refúgio.
O euro, numa economia que se debate com a crise da divida soberana e a ameaça de deflação, também não é grande alternativa. Claro que o lado positivo é esta análise estar completamente errada porque as economias dominadas pela especulação se poderão comportar de forma totalmente diferente.
Seja como for o referendo em si mesmo lança algumas questões. Se ganhar o “não” a uma qualquer associação com a Federação Russa? Alguém está a ver Moscovo a retirar da Crimeia a frota do Mar Negro? Claro que não.
O que vai na cabeça de Putin neste momento ninguém sabe. Uma coisa apenas é segura: Putin só pode sair reforçado desta crise; o orgulho russo vai sobrepor-se à contestação se a “Mãe Rússia” for posta em causa. Neste momento Putin é a Rússia por muito que se possa pretender o contrario.
A União Europeia foi incapaz de lidar com a situação na Ucrânia; pressionada pelos antigos países do Pacto de Varsóvia, hoje integrados na União, Bruxelas deixou que o ódio à Rússia latente nesses países desde o final da Segunda Guerra Mundial, falasse mais forte. Foi desastrosa a forma como a União Europeia incentivou a resistência ao poder instituído em Kiev quando este achou que uma associação comercial com a Rússia e a aliança Euro-Asiática, acompanhada de um generoso pacote de ajuda financeira russo era mais aliciante que a ajuda do FMI, do Banco Central Europeu e da Comissão Europeia. Na verdade, sabe-se agora, foram apoiados grupos neonazis. A denúncia foi feita num programa da BBC e soube-se também através de uma fuga de informação, convenientemente minimizada pelos media europeus e americanos entre Umas Paet, titular dos Estrangeiros da Estónia e Catherine Ashton, responsável pelas relações exteriores da UE: segundo a ministra da Estónia os atiradores de elite que dispararam sobre a multidão em Kiev “não foram os do Presidente mas os da nova coligação”. Uma coligação onde neonazis estão representados se acreditarmos no rabino Azman que no jornal israelita “Haaretz” aconselhava os judeus de Kiev a saírem da Ucrânia.
Bruxelas devia ter optado por uma posição cooperante que garantisse a continuidade de uma ligação económica reciproca com Kiev em vez de apoiar a queda do regime. Ao fazê-lo, mesmo sem consciência da infiltração de radicais de extrema-direita, incentivou a multidão na rua.
Torpedeou de facto, em conjunto com os Estados Unidos, o acordo “in extremis” patrocinado pelos ministros dos Estrangeiros da Alemanha, França, Polónia e Rússia, e acertado telefonicamente entre Putin e Obama, oposição parlamentar. Segundo este acordo entre o Presidente, agora refugiado na Rússia, e a oposição parlamentar (de onde saiu o actual Presidente em exercício) haveria vários passos que respondiam à contestação, designadamente as eleições seriam antecipadas, a constituição revista.
A Ucrânia foi empurrada para areias movediças e ninguém está na disposição de lhe lançar a corda com que tantos acenavam. No final a questão da Crimeia passará provavelmente pela secessão e o resmungar ocidental que irá olhar para o lado ao mesmo tempo que protesta. Resolvida essa questão geoestratégica a Ucrânia vai ter de se haver com o FMI e as troikas que Grécia, Irlanda e Portugal tão bem conhecem – para não falar na vigilância camuflada feita à Itália e a Espanha. E sem a benesse russa de venda do gás natural com 33 por cento de desconto. Mas até lá ainda resta saber se esse gás vai continuar a fluir ou se a confusão ucraniana se vai alastrar e até onde.
Políticos e governantes têm, todos e por todo o lado, de ter consciência da sua situação geopolítica, Bruxelas e Kiev parecem ter esquecido e Washington estava distraída. Acreditam?