18 de Fevereiro, 2014
O regresso periódico dos colunistas à questão síria mostra
manifestamente a urgência de conseguir uma solução para um conflito,
porventura gerado ou fomentado do exterior e que há três anos castiga o
povo sírio sem que se vislumbre de novo uma saída.
Evidente, após o encontro da última semana, é que procurar discutir um governo de transição para a Síria sem a existência de um “road map” para uma solução do confronto é uma não-solução.
O Governo sírio aceitou, por proposta de Moscovo, a entrega para destruição das suas armas químicas, de todo o seu arsenal, que neste momento está a bordo de um navio norte-americano ao largo de Espanha para destruição no mar. Ao fazê-lo, abriu as portas a um processo negocial que deveria ser abordado de um modo internacionalmente abrangente e tendo em conta a delicadeza das questões que estão em cima da mesa – a mais difícil das quais é a substituição, exigida pela oposição síria com apoio dos EUA, do Presidente Assad e do Governo. Todavia, mais importante do que uma dança de cadeiras é a segurança do povo sírio protagonista e vítima deste conflito.
Ora verifica-se em Genebra que, em nome do povo sírio, se procura o acordo para a constituição de um governo de transição sem que se tenham primeiro respondido a questões fundamentais como um cessar-fogo em todo o território, o apoio aos refugiados e deslocados e, muito em especial, um acordo entre as várias facções que combatem o Governo, ao mesmo tempo que se combatem umas às outras. Perante um cenário destes, não é fácil nem o trabalho de Lakhdar Brahimi nem a obtenção de um acordo consequente para os sírios. O governo de transição deveria ser o último ponto a incluir na agenda, mas deveria existir uma agenda, o tal “road map”, que definisse, à partida das conversações, qual o caminho a seguir, começando pelo fim da violência, para acabar na eventual escolha de um novo Presidente e Governo.
Nesta segunda ronda verificou-se uma insistência inusitada na abordagem de um governo de transição, em detrimento de todas as outras, designadamente, o desarmamento e neutralização de grupos armados não representados pelo Conselho Nacional Sírio e com ligações à Al Qaeda. Se não cabe, obviamente, aos observadores encontrarem e proporem soluções alternativas, nada impede, porém, que apontem que este caminho está errado. Existem, no passado, experiências que se revelaram dramáticas por as pretensas soluções políticas serem postas em prática sem que o desarmamento tivesse lugar. É, sabe-se comprovadamente, a receita do fracasso. Como é de fracasso uma solução que pugne desde logo pelo suicídio político de uma das partes, como se está a fazer face a Assad.
A Rússia assume com alguma consequência o seu papel, procurando pacientemente uma solução sem falar em governos de transição e apoiando os representantes governamentais nas conversações quando recusam discutir esse tema. A influência que o Kremlin pode ter sobre o Governo de Damasco não tem paralelo, contudo, com a tentativa norte-americana de liderar ou mostrar que está a liderar o processo em muito pouco contribui para que se encontre uma saída política para a guerra.
O afastamento do Irão por exigência dos Estados Unidos, porventura influenciados por Israel, também não contribui para a abrangência internacional conveniente ao processo de Genebra II. Teerão tem vindo a fazer sentir a presumíveis dirigentes da Al Qaeda que estavam no país que deveriam sair. O egípcio Thirwat Shihata, adjunto do actual líder da organização Ayman al-Zawahiri, abandonou a semana passada o Irão na sequência de uma onda de partidas de líderes extremistas estrangeiros que desde o 11 de Setembro estavam no país.
Com esta política Teerão procura por um lado mostrar a sua boa fé num novo relacionamento com o Ocidente, aliviar as pressões externa e interna, sem contudo perder totalmente a influência sobre alguns grupos que apoia. Israel nem quer ouvir falar da influência iraniana e muito menos de aproximação do Irão aos EUA e Europa. Contudo, Teerão pode ter influência não negligenciável sobre alguns extremistas que põem em causa qualquer acordo de paz na Síria.
Barack Obama, terminada em impasse esta segunda ronda sem que um terceiro encontro tenha ficado desde já agendado (outo erro), pediu aos seus assessores que encontrem alternativas. Mas a agenda interna do Presidente dos Estados Unidos limita as alternativas, pelo menos as aceitáveis.