27 de Fevereiro, 2014
Na Ucrânia os acontecimentos políticos sucedem-se a uma
vertiginosa velocidade e aparentemente fora do controlo dos que
apoiavam ou estimulavam a contestação ao Presidente Oleksander
Yanukovych.
Depois da pacífica “Revolução Laranja” de 2004 a Ucrânia nunca teve de facto estabilidade ou uma estratégia política e económica consequente. Nas ruas de Kiev se acossava Yanukovych e o seu regime de corrupção esquecendo que a sua antecessora, Yulia Tymoshenko, enquanto Primeiro-Ministro propiciou o mesmo tipo de corrupção que desgastou o poder. Se alguma coisa ficou claro nestes últimos anos é que as revoluções coloridas, como as primaveras árabes, não trouxeram ao poder regimes mais justos nem corrigiram os erros dos que derrubaram. A Ucrânia não foi excepção, uma vez na rua o poder torna-se tão incontrolável quanto imprevisível.
Lidando exclusivamente com factos a Europa, do Atlântico aos Urais, União Europeia e Rússia, tem um problema grave e mais uma vez de repercussões, se não globais, pelo menos internacionais extremamente sérias, porque pode pôr em causa a estabilidade e a segurança, sem falar do potencial impacto económico e financeiro que parece estarmos ainda longe de conhecer.
A Ucrânia que há séculos foi um dos pilares da cultura eslava fragmentou-se no século XIII, tornando-se um Estado Nação apenas em 1991, após o colapso da União Soviética. A sua economia poderia ser bastante robusta, assente numa fertilidade agrícola potencial superior à média dos países e numa indústria de ponta embora com meios de produção menos modernos. O país divide-se em duas grandes áreas, uma encabeçada pela capital Kiev, nacionalista, ucranófila a Oeste, fazendo fronteira com a União Europeia com que pretende aumentar os laços; a outra, a Leste, paredes meias com a Rússia, com capital em Kharkiv, russófona e eminentemente russófila e que vê na Rússia o parceiro preferencial. De notar que Moscovo é o grande cliente da indústria ucraniana que não oferece qualquer competitividade no quadro da União Europeia.
Aqui está o cerne de toda a complexa questão provocada pelas alterações súbitas e não programadas no poder: a divisão entre os que defendem uma aproximação económica e alguns até, se possível, uma ligação à UE e os outros que pretendem manter os seus laços tradicionais com a Rússia. Poderá a médio e longo prazo a Ucrânia manter a sua integridade territorial? No imediato a resposta está nas mãos do Presidente russo Vladimir Putin.
O que se passou no final da semana passada, goste-se ou não, foi uma humilhação pessoal para o Presidente russo, mas também embora em menor grau para Barack Obama e para os países europeus da troika europeia: França, Polónia e Alemanha. Putin e Obama passaram uma hora ao telefone a debater o acordo mediado pela troika europeia entre os partidos da oposição e o Presidente e que antecipava as eleições e pretendia responder aos protestos de rua e evitar a queda descontrolada do poder. Apesar de a Europa e a Rússia advertirem para as consequências, o acordo recusado pela rua não valeu sequer o papel em que foi escrito.
Por outro lado está a questão síria, que Putin tem conseguido controlar, embora cada vez com maiores dificuldades dada a violência dos confrontos e as pressões internacionais. O Parlamento ucraniano, face à precipitação de acontecimentos, viu-se confrontado com a demissão do seu presidente e o desaparecimento do Presidente Oleksander Yanukovych. Perante isso e a situação caótica na rua destituiu Yanukovych por incapacidade e elegeu de imediato para novo presidente Oleksander Turchynov, um homem supostamente da confiança de Yulia Tymoshenko, marcando eleições presidenciais para 25 de Maio. Porém na rua surgia a voz de Yulia Tymoshenko recém libertada da prisão depois de acusada de abuso de poder por Yanukovych. Tymoshenko adoptou uma posição mais populista que política, procurando surfar a onda de contestação.
Até 25 de Maio os meios financeiros vão faltar na Ucrânia e tudo indica que o país entrará em incumprimento da sua dívida. Vladimir Putin em Novembro havia acordado na concessão de um pacote de ajuda no montante global de 50 mil milhões de dólares, dos quais dois mil milhões de imediato e o fornecimento de gás a preços preferenciais.
A Ucrânia era chave na sua União Euro-Asiática que visa, em última análise, o derrube das barreiras aduaneiras e uma associação semelhante à União Europeia. Ninguém arrisca perante a volatilidade ucraniana apontar um vencedor das eleições de 25 de Maio. Os candidatos potenciais são todos eles contrários à associação com a Rússia e defensores de uma ligação estreita à União Europeia – excepção talvez da Sr.ª Tymoshenko, que não pode estar na crista da onda se se manifestar a favor das ligações com a Rússia.A antiga PM negociou com os russos os contratos petrolíferos em vigor no país, o que hoje parece não querer dizer muito.
Internacionalmente fazem-se ouvir as vozes a favor da manutenção da identidade ucraniana e da integridade do território. Na verdade ninguém sabe o que de facto pensa o Leste da Ucrânia e não é evidente que as opiniões sejam unânimes a Oeste como a Leste, sendo contudo previsível que o Leste seja mais favorável a uma associação com a Rússia do que com a UE. Por outro lado na Península da Crimeia está baseada a frota naval russa do Mar Negro e os portos são de importância estratégica para Moscovo; o pipeline que fornece o gás russo à Europa atravessa a Ucrânia e, por fim mas não menos importante, o que se passou neste país é considerado pelos poderes institucionais, em particular o russo, um péssimo exemplo de resolver na rua as questões que deveriam ser equacionadas no parlamento e através de eleições.
Vladimir Putin tem na mão a chave da integridade territorial ucraniana. Com o Leste do país potencialmente receptivo à Rússia, com a Ucrânia em profundas dificuldades financeiras que a União Europeia não se propõe resolver da forma expedita que Putin ofereceu, com as diferenças históricas e culturais do país ao Kremlin, basta-lhe oferecer melhores condições ao Leste para estimular as divergências entre ucranianos.Se não é credível que Moscovo mande os seus tanques como na Hungria, também não é credível que o Ocidente chore se a Ucrânia e os seus problemas financeiros conduzirem a uma divisão do país e a novos confrontos. Afinal a Ucrânia será apenas mais um mercado.