terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Obama e a maquilhagem da espionagem


Benjamim Formigo |
21 de Janeiro, 2014

Seis meses depois das revelações de Snowden sobre as escutas da Agência Nacional de Segurança (NSA) a personalidades estrangeiras e a milhões de outras pessoas, Barack Obama escolheu as instalações do Departamento de Justiça para dar maior solenidade ao anúncio de um conjunto de medidas a limitarem a violação da privacidade dos cidadãos e a escutas de líderes de países amigos ou aliados dos Estados Unidos.
As medidas anunciadas pelo Presidente dos Estados Unidos não deixam de ser uma maquilhagem da recolha da informação, da violação da privacidade dos cidadãos e das escutas a Chefes de Estados e de Governos amigos ou aliados.
A informação bruta, a tal metadata, continua disponível. Apenas deixa de estar sob o controlo da NSA para existir em arquivo dos operadores de telecomunicações ou de uma entidade a criar para o efeito.
O acesso a esses dados passa ou por uma autorização de Tribunais próprios já existentes ou em caso de “emergência nacional”.
O que faltou foi definir emergência e quem a define. Na verdade, as medidas anunciadas são de um ponto de vista dos cínicos uma operação cosmética que mantém à disposição dos espiões a informação que não pode ser recolhida.
A decisão de proibir as escutas telefónicas além de dois níveis não foi sequer mal recebida pela comunidade de informações, pois os actuais três, sem contar com o alvo inicial ou principal, tornavam quase impossível o processamento da informação recolhida. Tudo sucedeu afinal graças a Edward Snowden que decidiu revelar o que o seu empregador – a NSA – estava a fazer, em muitos casos a roçar a ilegalidade e as relações de confiança entre amigos e aliados. E é bom que se esclareça que Snowden não violou o pacto de silêncio, pois revelou dados sobre a segurança dos EUA, nem espiou a favor de terceiros países. Apenas falou mais do que a NSA e a Administração queriam.
A solenidade das instalações de Departamento de Justiça para procurar ganhar a confiança da opinião pública, norte-americana e estrangeira, pouco confiante nos chamados líderes do mundo livre.
O reconhecimento por Barack Obama que a liberdade não pode estar apenas dependente de relações de confiança entre governados e governantes, mas do Direito e da legislação que controle os detentores do poder foram a pedra angular para tentar dar credibilidade às medidas.
A questão de fundo permanece e não há volta a dar-lhe. Toda a gente espia. Sejam os governos que procuram tirar vantagens políticas, diplomáticas e estratégicas face a outros, seja a favor de uma segurança nacional e da luta contra o terrorismo.
Constituíram-se mesmo empresas, cujo negócio é espiar a favor de quem as contratar. Até alguns jornais espiam, como se soube no ano passado, com a revelação das actividades de uma publicação do grupo de Rupert Murdoch que originou uma investigação do Parlamento britânico.
A tecnologia, com maior ou menor grau de sofisticação, está disponível no mercado. A própria NSA tem procurado atrasar ou dificultar o desenvolvimento de sistemas de encriptação por parte de operadores ou software houses.
A Agência tinha ou estava a fazer, mas permanece o silêncio sobre os serviços franceses, alemães ou britânico e é legítimo ter dúvidas que não façam o mesmo. Que espiam amigos e aliados existem poucas dúvidas e até Obama falou disso, sem mencionar países, mas dizendo apenas que “muitos dos que se mostraram ofendidos fazem o mesmo”.
Barack Obama teve pelo menos o mérito de reconhecer o que a NSA fazia, teve a delicadeza de lançar uma operação de maquilhagem e se for mais do que isso peço desculpa pelas minhas dúvidas.
Os russos dispõem de um serviço e uma Administração onde o secretismo é lei, mas porque são russos ninguém duvida que espiem. Os chineses não lhes ficam atrás e os europeus encobrem os seus rastos.
A outra verificação é que o público está disposto a aceitar alguns sacrifícios, a abdicar de parte da privacidade e até da liberdade sempre que se lhe acena o fantasma do terrorismo.
Lamentavelmente esta é uma vitória do terrorismo tão bem maquilhada que quase se não fala dela.