28 de Janeiro, 2014
O Leste europeu parece continuar a viver o sonho da
propaganda dos tempos da Guerra Fria. A ocupação soviética, terminada há
praticamente 25 anos com a queda do Muro de Berlim e as mudanças que
se seguiram, parece continuar a despertar ódios e antagonismos, de
países hoje independentes, face a Moscovo.
A Europa, União Europeia, mostra recentemente sinais de estar a sair da perturbação financeira e económica em que esteve mergulhada, na sequência da crise desencadeada nos Estados Unidos. Todavia, os países do Centro e do Norte, ao longo destes dois últimos anos de crise, sempre apontaram o Sul como zona de risco, procurando manter-se acima da linha de água.
Na ausência de estímulos ao crescimento do seu mercado interno, a União, designadamente a Alemanha e a França, mesmo com François Hollande, necessitavam de novos mercados que há muito ambicionavam, em particular Berlim: os mercados do Leste europeu que se mantinham à margem.
Ao longo destas duas décadas e meia assistimos ao aglutinar na UE de Estados que antes estavam integrados no Pacto de Varsóvia e no Comecon. Houve como que uma revolta face à URSS no seu final herdada pela Rússia. Até à NATO muitos aderiram, apesar dos protestos da Rússia de Boris Ieltsin. A Ucrânia tentava o mesmo caminho mas a Ieltsin sucedeu Vladimir Putin com uma estratégia política, económica e de defesa para a Rússia.
O gigante adormecido passava das mãos de uma oligarquia inoperante para um semi-capitalismo mais eficiente e rentável. Quando este ano a Ucrânia, com a sua economia em profunda crise e um défice orçamental descontrolado, necessitou de se financiar no exterior, Kiev sentiu pela primeira vez o vazio que era realmente a UE. Bruxelas, face às necessidades ucranianas, pouco mais ofereceu que uma fraca ajuda financeira, acompanhada das reformas e vigilância do FMI, do BCE e da Comissão Europeia.
A receita – que hoje é oficialmente reconhecida como lucífera – é aplicada abertamente aos países da Zona Euro sob resgate e informalmente aos que são encobertamente resgatados (casos da Itália e Espanha).
A receita europeia não agradou ao Presidente ucraniano Viktor Ianoukovitch, desde logo mais receptivo a uma aliança estratégica com Moscovo. Para Bruxelas – leia-se, para a Europa Central e do Norte - é importante a criação de uma zona de influência como a Ucrânia, a Leste, para aumentar os seus mercados.
Claro que Vladimir Putin não foi alheio ao agravamento da situação económica na Ucrânia. A Rússia reduziu ao mínimo as suas compras no mercado ucraniano, pondo em causa a viabilidade de muitas indústrias do seu antigo aliado.
No momento oportuno, quando para Kiev era inevitável o recurso ao crédito externo, Putin abriu a pasta e tirou um pacote financeiro e económico que a União Europeia e a sua actual liderança nunca sonhou propor, nem tem capacidade para o fazer. Vladimir Putin, após breves conversações com o seu homólogo ucraniano Viktor Ianoukovitch, colocou em cima da mesa um pacote que incluía um financiamento de 15 mil milhões de dólares, que salvou a Ucrânia de faltar aos seus compromissos.
A Rússia ofereceu aquilo que Bruxelas recusou dentro da Zona Euro: a compra de 15 mil milhões de dólares em títulos de obrigações da dívida ucraniana, baixou o custo do gás natural de 400 dólares EUA / por mil metros cúbicos para 268,5 dólares, abriu as portas ao fornecimento de crude à refinaria de Odessa, no Sul, e retomou a cooperação industrial que suspendera. Contrapartidas, o uso do rublo como moeda comercial.
Bruxelas reagiu continuando as pressões para a adesão da Ucrânia a um acordo preferencial, sem contudo oferecer nada que pudesse assemelhar-se à proposta russa.
Apesar disso, a aposta da Europa e dos países do centro, em especial a Alemanha e a França, sequiosas de acesso a novos mercados, contém em si o risco de desestabilizar cada vez mais o vizinho eslavo.
Os confrontos continuam um pouco por toda a Ucrânia através da contestação violenta, promovida por partidos nacionalistas ou ditos de esquerda, que recusaram no sábado um acordo de partilha de poder com o actual Presidente.
A Ucrânia, ao contrário da Polónia e outros ex-satélites da extinta URSS, é estratégica para os interesses da Rússia. Por lá passa o gasoduto que leva para a UE o gás que alimenta de energia a indústria europeia. Existem depósitos de matérias-primas no país e interesses cruzados de capitais russos e ucranianos. Além disso, o complexo militar-indústrial ucraniano vive do seu vizinho russo, como existe uma indústria aeroespacial interdependente. Moscovo tem alternativas para essa comunhão industrial, como tem alternativas para a venda do seu gás.
A União Europeia, neste caso Bruxelas, procura servir os interesses de grupos financeiros que hoje nem se sabe até que ponto são europeus. Nem que isso implique fazer precisamente o contrário do que seria de esperar numa zona continental contínua: a aliança estratégica com a Rússia, parceiro natural.
O que faz afinal correr os senhores da Europa?