14 de Janeiro, 2014
A duas semanas do início das conversações em Genebra para
uma solução de paz na Síria aumentam os confrontos entre facções da
oposição armada síria com grupos seculares a combater os ligados à Al
Qaeda e até entre agrupamentos que declararam lealdade a esta
organização, complicando consideravelmente uma situação muito pouco
clara.
Os conflitos entre grupos rivais nestas crises nascidas ou inspiradas numa “primavera árabe” não são inesperados.
A única surpresa, se o é, foi terem começado ainda durante a luta contra o Governo de Assad e não como sucedeu na hoje desagregada Líbia, onde os Estados Unidos e parte da Europa ajudaram a derrubar o único factor que evitava a desagregação e a instabilidade que hoje ameaça os países vizinhos. Ameaça de instabilidade externa que se está a instalar também no Norte da Síria, onde os grupos fundamentalistas, em particular os extremistas, foram ocupando o vazio de poder provocado pela guerra.
Em vésperas de uma conferência como a que está marcada para 22 deste mês em Genebra seria de esperar uma intensificação dos esforços para garantir posições militares que se pudessem traduzir em vantagens negociais.
Surpreendentemente, ou não, só o Governo está a tirar partido destes confrontos entre a oposição para retomar e tentar consolidar posições perdidas. A conferência do dia 22 realiza-se graças à iniciativa diplomática russa, que evitou o ataque americano à Síria, levando Damasco a aceitar a entrega e destruição das suas armas químicas, uma iniciativa que tirou Obama de um aperto político-militar.
Seria pois de esperar uma cooperação ou no mínimo uma coordenação de posições entre Washington e Moscovo, tanto mais que foi na sua sequência que o Irão se mostrou aberto a negociar o seu programa nuclear.
Para dar início a um processo que presumivelmente se pretende bem sucedido, seria de desejar uma qualquer forma de participação de Teerão, o que só traria vantagens no outro processo já iniciado sobre o seu programa nuclear. Errado. Washington pretende assumir a liderança do processo e, mesmo contra a opinião já manifestada por Moscovo, fez saber que não existe senão um hipotético lugar de observador secundário para o Irão, se este conseguir que Assad abra corredores humanitários. Sem surpresa Teerão reagiu manifestando ofensa por não lhe ser reconhecida a influência que tem de facto na região, onde é uma das potências que pode ser determinante.
Se neste momento a chamada Coligação Nacional Síria aceitou sentar-se à mesa das conversações, o mesmo não sucedeu com muitos outros grupos, em especial os islâmicos mais radicais e que agora combatem entre si.
Para os EUA, como para a Rússia e outros países envolvidos, nenhum dos lados em confronto é particularmente atraente, mas a verdade é que recebem do Golfo, designadamente do Qatar e Arabia Saudita, financiamentos com que adquirem armas e influência e integram os combatentes estrangeiros que se juntaram ao grupo que defende o “Estado Islâmico do Iraque e Síria”.
A confusão instalada tornou-se nos últimos dias ainda mais complexa e Washington parece não tomar consciência desse facto, que pode determinar o adiamento, impasse ou fracasso do processo, não contribui para outros diálogos úteis na região, onde a violência se espalha da Síria à Líbia, sem contar a contestação de rua na Turquia, onde um Governo secular se enreda no islamismo, e o que ainda mais se verá, em particular depois dos também recentes atentados na Rússia, levados a cabo por radicais islâmicos, independentistas ou não.