quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

A grande coligação da Alemanha


Benjamim Formigo|
18 de Dezembro, 2013

Três meses depois das eleições alemãs surge finalmente a “Große Koalition” a que Merkel foi obrigada depois de os seus parceiros liberais falharem a fasquia dos cinco por cento, necessária para um lugar no Bundestag.
Um documento com mais de centena e meia de páginas, aprovado sábado em referendo pelos militantes social-democratas (SPD), vai reger as relações entre o SPD de Sigmar Gabriel e a CU-CSU de Ângela Merkel. Contudo, o SPD falhou o seu objectivo principal, o afastamento do ministro das Finanças Wolfgang Schauble, cuja política financeira ignora o Mundo em detrimento da Alemanha.
A falta de solidariedade alemã com a Europa, a influência que tem exercido sobre Kiev para que se afaste de Moscovo e se ligue à Europa por um acordo que abre o mercado ucraniano, em particular à Alemanha, não é visto por muitos com bons olhos, sobretudo os que vêem em Moscovo um parceiro e não um adversário e menos ainda um inimigo.
Se o SPD nesta “Große Koalition” não conseguiu as Finanças, conseguiu em contrapartida o lugar de vice-chanceler para o seu líder que terá ainda a supervisão dos Assuntos Económicos e Energia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros para Frank-Walter Steinmeier, o do Ambiente, o da Defesa, num total de seis Ministérios, alguns deles postos chave para a governação. A Energia e Ambiente são essenciais à decisão de Merkel abandonar a dependência do electronuclear e o titular dos ­Negócios Estrangeiros participa semanalmente no Conselho de Assuntos Gerais da União Europeia.
Na verdade, as diferenças de fundo entre os dois partidos não são abissais. Porém, a chanceler Merkel vai agora ter de fazer no seu país o contrário do que exige dos outros europeus, designadamente, Grécia, Itália, Espanha e Portugal: um salário mínimo decente, uma diminuição da idade da reforma, um relaxamento do défice.
Além disso, a longa experiência de integração europeia do SPD vai exigir maior solidariedade da união, em vez do “diktat” de um BCE que mais parece um prolongamento do Bundesbank, a criação de um fundo europeu de resgate às instituições financeiras em crise, em vez de fundos nacionais, como Wolfgang Schauble pretende. Um reforço da rede de protecção social do Estado (paga desde sempre pelos contribuintes) não é de excluir.
Outra das mudanças interessantes na Alemanha é o titular dos Estrangeiros, um ministro que regressa depois de se ter tornado conhecido pela defesa de uma parceria estratégica da União Europeia com a Rússia, que faz todo o sentido. Será interessante observar se ele consegue ultrapassar a relutância de Merkel, que fez a sua vida na RDA, face aos russos, mesmo depois do fim da URSS.
A mudança é porém mais cosmética que real, a menos que o SPD actue junto dos patrões alemães para conseguir maior poder de compra no país de forma a aumentar o consumo nacional e diminuir a sua dependência de mercados asiáticos porventura voláteis. A recuperação do poder de compra da União é outro dos elementos essenciais à retoma económica através do relançamento do mercado interno  da União Europeia.
Uma maior intervenção do BCE nas dívidas soberanas, essencial à descida do euro, cujo valor face ao dólar americano está a sufocar as exportações da Alemanha, mas também da Europa para os tradicionais mercados estáveis que a longo prazo não se substituem aos actuais. Uma breve nota para salientar que se a política financeira da União Europeia tem contribuído para a desvalorização do dólar, a incapacidade de Congresso e Casa Branca se entenderem sobre orçamentos e despesas e o recurso exagerado ao lançamento de moeda verde na economia tem uma quota bem importante de responsabilidade.A forma como a crise económica, agora agravada pela União Europeia, depois de desencadeada em 2008 pela banca americana, está a afectar as economias emergentes, é uma das preocupações do SPD, mais apostado nos efeitos de médio e longo prazo, e dos dirigentes europeus do Sul, da França e até já alguns do Norte. A própria Grã-Bretanha sente os efeitos desta política de austeridade.
Que o diga o BRIC que apesar do seu poder se vê em dificuldades para manter o crescimento, excepção feita talvez à Índia. As economias emergentes sentem os custos de um euro cujo valor não tem uma correspondência real, sendo porém útil aos grandes consumidores europeus de petróleo.
Mais, a paridade euro-dólar aliada ao valor do barril de petróleo (que torna rentável a exploração de certas zonas nos EUA) são um estímulo à extracção petrolífera em zonas como o Texas, com consequente diminuição de procura no mercado internacional.
Se a Grande Depressão nos Estados Unidos, nos anos 20 do século passado, teve efeitos quase globais, hoje, num mundo digital à velocidade da luz, as crises tendem a ser globais, e ninguém, mais tarde ou mais cedo, lhes escapa. Por isso mesmo a crise na União Europeia tem de acabar e depressa, ou mais depressa do que os anunciados crescimentos inferiores a um por cento permitem. A União Europeia tem de pagar parte da factura e devolver aos outros uma parte do que arrecada.