25 de Novembro, 2013
A nova ronda de conversações em Genebra, iniciada na passada
semana, entre os Estados Unidos e o Irão levou a um acordo temporário
sobre o programa nuclear iraniano e à suspensão de partes importantes
da sua potencial componente militar, culminando assim a primeira fase
de seis meses de diplomacia secreta entre Washington e Teerão.
A contrapartida dessa desistência, que colocaria de lado os riscos da entrada do Irão no grupo dos países com armas nucleares, é o levantamento das sanções à compra de petróleo iraniano, que provocou uma redução de 50 por cento nas receitas do país.
Se os aliados europeus de Washington apoiam o acordo provisório ou intermédio, a que se chegou ontem, o mesmo não se pode dizer de Israel, que continua a sustentar que o risco não é menor por causa do acordo e que este coloca em causa a sua segurança, nem da Arábia Saudita, que ameaça desenvolver o seu próprio programa nuclear. Os sauditas, historicamente, vêem uma ameaça na Pérsia (Irão). Apoiaram Saddam Hussein quando o Iraque declarou guerra ao Irão. Apoiam os rebeldes armados sírios, por oposição interposta ao Irão e à sua influência na região, como apoiaram no Afeganistão um Bin Laden contra os soviéticos. Mais: o programa nuclear do Paquistão foi financiado substancialmente pelos sauditas. Vizinho do Irão, o Paquistão nuclear, por antagonismo com a Índia, seria sempre útil face à antiga Pérsia.
Se os sauditas decidirem recorrer a um programa nuclear, é o potencial descalabro numa região instável, onde quanto menos armas houver melhor e se não houver armas nucleares a paz ainda tem uma hipótese. Como financiadores do programa paquistanês, não será difícil aos sauditas obterem, através do Paquistão, a tecnologia necessária. Isto – a simples ameaça de se poder tornar uma realidade – levará o Irão islâmico a não recuar, quaisquer que sejam os incentivos e aumentará a dimensão do risco para Israel. A acrescer a uma situação já em si mesmo complicada, nos Estados Unidos, Obama, menos de 24 horas depois do acordo, já está consciente que tem de convencer os “falcões” do Capitólio a recuar num conjunto de sanções com que pretendem responder ao programa nuclear iraniano, agora perto de uma situação de congelamento.
No Irão, os radicais da Guarda Revolucionária acham que se obteve uma bagatela pelo acordo actual, que poucas sanções levanta e não limpa o orgulho nacional. Acrescente-se que, realmente, pouco aliviam as dificuldades do iraniano comum, descontente com as pressões internacionais.
Seis meses a um ano de conversações não são muito para se conseguir aproximar as várias partes e, em paralelo, “segurar os cavalos”, os vários “cavalos” que se opõem às negociações. Provavelmente, deveria haver um alívio mais significativo das pressões, por exemplo, a União Europeia podia recomeçar, mesmo gradualmente, as compras de petróleo iraniano, decisão que não passa por Washington, onde qualquer alívio é um problema para os negociadores do Departamento de Estado e da Casa Branca.
Estes próximos seis meses são cruciais para um acordo final com o Irão e o desanuviamento na região, mesmo que isso custe aos sauditas e aos israelitas falta de tranquilidade nos meses que se seguem. Sem precipitações nem receios prematuros, a diplomacia tem uma hipótese, no Irão e na Síria, tanto mais que o acordo obtido já foi apoiado pelos principais actores, incluindo a OTAN em geral, a Rússia e a China.