segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Damasco em busca de trunfos nas conversações


Benjamim Formigo |
18 de Novembro, 2013

Após a aprovação pelo Conselho de Segurança da ONU da resolução que determinou o fim do arsenal químico sírio e defende uma saída negociada do conflito em que o país vive há dois anos, a tensão na região aliviou, todavia o Governo sírio, como seria de esperar, aumentou a actividade militar, procurando posicionar-se no terreno antes de se sentar à mesa das conversações.
O facto de a dividida oposição a Bashar Al Assad insistir em condições prévias para iniciar negociações veio apenas favorecer o Governo que, aliviado da ameaça externa sobre o seu arsenal químico e, consequentemente, sobre o seu poder, pode desencadear novas ofensivas visando alargar e consolidar a sua área de influência, antes de um cessar-fogo ser imposto pelo início das conversações ou durante estes. O habitual é que se estabeleça um cessar-fogo nas posições ocupadas pelas forças dos dois lados, e a Síria tem a experiencia passada de conflitos com Israel, em que sempre se posicionou para lá das suas fronteiras antes que um cessar-fogo entrasse em vigor.
As forças antigovernamentais parece não estarem a receber os apoios militares e políticos com que estariam a contar.
A aceitação por Damasco da entrega e destruição do seu arsenal químico veio esvaziar um balão que à medida que enchia ia propiciando apoios políticos e materiais aos grupos da oposição armada.
Não tendo sido fácil encontrar uma plataforma comum sobre as armas químicas no Conselho de Segurança, os apoiantes do autoproclamado Conselho Nacional Sírio evitam qualquer movimento que possa afectar esse consenso, o que a suceder teria reflexos nas conversações difíceis com o Irão.
O facto de o primeiro encontro com o Irão ter terminado sem um comunicado final, que os franceses dificultaram, não é uma ruptura, mas apenas uma fase das conversações. Ninguém esperaria, certamente, que numa reunião ficasse decidido o futuro do programa nuclear iraniano.
O processo está no início e as principais potências não o querem ver descarrilar, mesmo que ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, tenha uma certa atracção pelo abismo e François Hollande não pareça muito pragmático.
A qualquer momento é possível aos russos pressionar o Governo sírio a moderar a sua actividade, contudo não é segredo que ninguém sabe bem como controlar ou pressionar os vários grupos que se agrupam ou não em torno dos políticos da Conselho Nacional Sírio  e do Exército Livre da Síria, sendo certo que entre os grupos fundamentalistas alguns estão na lista de terroristas dos EUA pelas suas ligações à Al Qaeda.
Também é certo que o Irão tem um papel importante, dada a sua conexão com o Hezbollah e as suas relações com o Governo de Bashar Al Assad.
Em contrapartida, não só ninguém parece ter influência sobre os grupos armados que combatem o Governo como os que até agora têm apoiado esses grupos começam a olhar com desconfiança as pré-condições negociais de quem parece não ter força para as impor.
Pior, o agravamento da situação na Líbia, onde reina o mais completo caos, desde a queda do regime do coronel Kadhafi, e onde esta semana as milícias abriram fogo sobre civis em Trípoli, vem aumentar a desconfiança e tornar cada vez mais evidente o embuste das “primaveras árabes”. O que em nada beneficia os grupos armados da oposição síria.
A ofensiva que esta semana levou o Exercito sírio a um afastar de ombros, criando espaço para respirar,  retomando o controlo de muitas cidades e conseguindo cortar algumas linhas de abastecimento dos rebeldes, não é um simples movimento para ganhar uma guerra que provou já não ter saída militar, mas conseguir trunfos negociais para Genebra.
O relógio começou a contar em Genebra e o tempo, a menos que haja alguma reviravolta inesperada, não está a favor da oposição armada e de posições irredutíveis.