7 de Outubro, 2013
A última semana, e em particular o último fim-de-semana,
trouxeram de novo à luz a determinação dos Estados Unidos em regressar à
diplomacia, mas mantendo o recurso à força, afirmando a sua influência
e capacidade de intervenção, mesmo em tempo de crise e de querelas
políticas internas.
Na Líbia, al-Ruqai terá sido feito prisioneiro em plena rua da capital, enquanto na Somália está em dúvida se falhou o plano para a captura do dirigente do Shabab ou se, perante alguma dificuldade de o fazer, os “Seals” optaram por o abater ou ainda se tiveram de retirar para evitar baixas civis, como foi dito pelo Pentágono, sem esclarecer o que se passou. Num caso como noutro é evidente que o objectivo norte-americano foi a captura, se possível, dos dois (ou mais) homens. Quando o objectivo é a morte desses dirigentes Barack Obama tem sempre optado pelos ataques de “drones” ou com mísseis, sem o envolvimento de tropas no terreno.
Seria ingénuo não ligar os dois ataques simultâneos a uma resposta de Obama aos que o criticam pela opção diplomática na Síria. Mas seria injusto não admitir que o Presidente dos EUA teve duas oportunidades excelentes: as informações que levaram à captura de al-Ruqai na Líbia, em plena rua, por tropas especiais, e uma oportunidade de decapitar ou afectar severamente o al-Shabab desembarcando um grupo de “Seals” numa casa onde pernoitavam, junto à praia na Somália, independentemente do resultado. Washington parece ter decidido que não irá tolerar a expansão no Norte de África e no resto do continente da Al Qaeda e grupos afiliados pondo em causa os interesses económicos americanos e, em simultâneo, a estabilidade de alguns países.
Como ingénuo seria pensar que, na altura em que Washington e Teerão retomam um diálogo de algum modo bilateral, ainda que incipiente, isso não ocorre na sequência de uma alteração na liderança iraniana e da demonstração de força americana relativamente à situação na Síria, em simultâneo com um compromisso entre Moscovo e Washington. O mesmo se pode dizer relativamente à coincidência dos “raids” antiterroristas do final da semana.
O incipiente diálogo entre o Irão e os EUA não deixa de ser um marco, e com um significado particular, já que a abertura dos dois lados ocorreu em plena Assembleia Geral da ONU. Washington ainda não ultrapassou a crise dos reféns da embaixada dos EUA em Teerão, como não confia na liderança do país dominada pelos clérigos. Mesmo que estes estejam na disposição de permitir alguma moderação (do ponto de vista ocidental) ao novo presidente, a poderosa Guarda Revolucionária continua a apoiar o Hezbollah e o Governo sírio a suscitar reservas de Israel, a que os democratas americanos são ultra sensíveis.
O programa nuclear iraniano irá continuar a ser o ponto de desentendimento e fulcro de todas as reservas de Washington. Muito embora o líder iraniano na Assembleia Geral da ONU tenha ligado o seu programa nuclear ao Tratado de Não Proliferação (TNP), não deu qualquer indicação de abertura das instalações nucleares do país aos inspectores da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA).
Os signatários do TNP confiaram precisamente na AIEA a missão de garantir que o urânio enriquecido pelas partes não vai para além dos limites necessários à produção de energia ou com fins terapêuticos. Obama reconheceu o direito de acesso de um Estado ao electronuclear, mas alertou contra a posse de urânio com um grau de enriquecimento militar.
No futuro próximo, se ninguém fizer descarrilar este processo, os dois lados estarão atentos aos movimentos um do outro e a todos os sinais, incluindo o desenrolar dos eventos na Síria.
O processo será longo, em termos ocidentais, mas os conceitos de tempo variam entre as margens do Mediterrâneo, e ainda mais com o Atlântico pelo meio.
Os americanos, pela primeira vez, parecem estar a dar algum espaço de manobra à nova liderança política em Teerão, tema a que aqui fizemos referência no início de Agosto. Todavia, os líderes religiosos iranianos, cuja influência é determinante na vida política do país, tal como a Guarda Revolucionária (uma variável muito complicada), tenham consciência de que, malgrado todas as críticas, Barack Obama é a primeira abertura séria que encontram, tanto mais que está no seu último mandato presidencial.
Os iranianos têm vantagens em conseguir um alívio, mesmo que progressivo, das sanções que prejudicam a economia, mas que por outro lado trazem alguma coesão interna. A Administração Obama, em período de guerrilha política com uma facção republicana, que se está a tornar impopular e a atingir a economia mundial, encontra em acções externas a popularidade que permite ao Presidente passar à margem do Congresso e apelar directamente aos americanos, colocando sobre os seus adversários uma pressão eleitoral importante.
O problema maior é que tanto os clérigos iranianos como Barack Obama têm o terrível hábito de ziguezaguear em matéria de política externa (e até interna). A oportunidade existe, com muitas condicionantes, incluindo a Síria, Israel, e a Península Arábica, onde demasiados actores têm agendas próprias.