24 de Setembro, 2013
Um ano atrás, em 2012, nada garantia que Ângela Merkel
viesse a receber novo mandato à frente do Governo alemão. O país
parecia prestes a ser sugado para a recessão, o desemprego dava sinais
de subida e o euro parecia uma bússola desmagnetizada. Afinal foi
inevitável.
Merkel por seu turno centrou-se na situação interna da Alemanha tirando partido da retoma económica da Europa, impulsionada sem dúvida pela economia alemã, da manutenção do emprego alemão em níveis estáveis, da contenção da inflação. O já referido medo dos alemães dos surtos inflacionários e do desemprego foram terreno fértil ao discurso da chanceler. Tão fértil que o eleitorado se deslocou do seu parceiro de coligação, o FDP (liberal) para o CDU-CSU (cristão democrata) de Ângela Merkel.
Na Alemanha um partido para ter representação no Bundestag (Parlamento) necessita de obter pelo menos cinco por cento dos votos. Pela primeira vez na sua história o FDP tem de abandonar o Governo por não ter alcançado a fasquia mínima para ter representação parlamentar.
Ângela Merkel terá de encontrar um entendimento com o SPD para manter uma coligação alargada que tem sido sempre necessária, e uma receita de sucesso, ao CDU-CSU. Obteve um resultado ímpar para a CDU, 41,5 por cento dos votos, perto da maioria absoluta. A coligação é inevitável, provavelmente tendo em conta o pacto de regime entre os partidos alemães seria inevitável mesmo com a maioria absoluta. E com a euro-crise a teimar manter-se a chanceler, logo na segunda-feira, afirmava que iria governar em coligação.
O SPD será o parceiro mais provável e Merkel já manifestou abertura a um diálogo com os social-democratas para a formação do novo Governo. Porém o líder do SPD Peer Steinbrück afastou a sua participação no novo Executivo pois não quer voltar a trabalhar com Merkel – a cujo Governo pertenceu num passado quase distante. Das várias alternativas possíveis o SPD surge como mais próximo da política de Merkel, apesar das divergências. Todavia os social-democratas não esquecem que a sua aliança com o primeiro Executivo Merkel lhes custou em 2009 o pior resultado de sempre e serão extremamente cautelosos na negociação de um acordo de Governo com a chanceler.
O essencial da política da chanceler não estará em causa. Todavia Merkel terá de aceitar alguma inflexão em termos externos, designadamente na política de contenção e de austeridade do Banco Central Europeu, que tem sido gerido desde o seu nascimento na linha do Bundesbank em que se inspirou. O SPD, na oposição, ao contrário do CSU, tem criticado o excesso de austeridade imposto pelo FMI, BCE e Comissão Europeia, alegando que as medidas impostas a outros membro da União estavam a contrair o mercado interno e consequentemente o consumo de produtos alemães nesse mercado. As vendas da Alemanha para o Sul da Europa e mesmo a União em geral têm decrescido e só para os mercados emergentes se mantêm estáveis. Peer Steinbrück pretende manter vivos os destinos tradicionais alemães, sem descurar novos, como é evidente, e acentuando uma solidariedade inter-europeia na linha tradicional não só dos social-democratas como dos antigos cristãos-democratas de Helmut Kohl, hoje figura quase esquecida internacionalmente e a quem se ficou a dever, conjuntamente com o líder liberal, seu parceiro de coligação, Hans Dietrich Gensher (outra figura esquecida), o consenso europeu para o financiamento da unificação da Alemanha.
Uma aproximação à França, onde Hollande tem sido quase tão colaborante como o seu antecessor Sarkozy, tem também de ser ponderada se Berlim não quiser ter sobre os ombros o peso de ser o único motor da economia europeia. A França está em crise, não como a Itália ou a Espanha – que de facto estão sob resgates encapotados e sofrem medidas de austeridade com importantes reflexos no consumo, incluindo de bens provenientes da Alemanha. Aproximação bem mais fácil com o SPD mas não impossível com a actual coligação. Afinal Ângela Merkel só volta a ter eleições dentro de quatro anos.
Em qualquer caso a visão paroquial que a chanceler tem tido da Europa tem de ser ajustada. A paróquia é grande demais e importante demais no contexto internacional. O euro voltou a subir face ao dólar e outras moedas de referência. O petróleo passou a custar menos euros, contudo os produtos europeus, e designadamente alemães (o maior exportador) passaram a custar mais dólares, tornando-se pois menos competitivos fora da zona euro. As dívidas soberanas, enquanto o BCE se mantiver fora, continuam vulneráveis à especulação, o sistema bancário europeu continua vulnerável. O paradigma tem de mudar mas é difícil acreditar que a chanceler aceite mudanças significativas mesmo com os social-democratas. Alternativa seria uma coligação com os Verdes que se afigura pouco provável, apesar da inflexão conservadora destes que defendem o casamento homossexual.