6 de Setembro, 2013
A retoma da economia mundial, a quebra das ameaças de
recessão das economias emergentes e as medidas para o relançamento do
consumo para vencer a ameaça recessiva passaram para segundo plano. Só
uma incomensurável ingenuidade permitiria que algum dirigente dos Vinte
chegasse a São Petersburgo convencido do contrário.
A Administração americana, internamente, tem colocado a tónica na “segurança nacional dos EUA”, e mesmo sem esse argumento nada impede constitucionalmente o Presidente dos Estados Unidos de desencadear uma acção militar sem aprovação do Congresso. Desde 1983, quando Ronald Reagan determinou a invasão da pequena ilha de Grenada, por alegadamente ter bases cubanas que punham em causa a segurança dos Estados Unidos, o argumento foi usado mais de uma dezena de vezes à revelia do Capitólio. Obama pretendeu apenas, na linha do que é a sua governação, dividir com os congressistas a responsabilidade.
A aprovação pela comissão do Senado foi porém muito além do que Obama esperava e eventualmente pretendia. Para conseguir o apoio do influente senador republicano John McCain, um dos principais falcões do Capitólio, o texto incluiu uma provisão que ultrapassa os anunciados objectivos punitivos de Obama e define uma estratégia de substituição de regime.
A reunião do G-20 foi convocada para debater, discutir e encontrar caminhos para apoiar o crescimento dos países desenvolvidos que entraram em novo ciclo de crescimento e em simultâneo – ou para ajudar a esse crescimento – definir as acções que impeçam as economias emergentes de se afundarem na recessão que as começa a afectar. Numa primeira análise poder-se-ia acreditar que uma crise no Médio Oriente seria boa notícia para as economias dos produtores de petróleo. Não é verdade. Uma boa parte da queda dos PIB’s dos países emergentes beneficiários de receitas petrolíferas deve-se à quebra da procura nas restantes economias que ainda estão apenas na fase de conhecerem um ligeiro crescimento. De repente a agenda do G-20 foi raptada tornando inevitável que as atenções se centrem na crise do Médio Oriente e na sua gravidade, como nas suas consequências económicas para os países que integram o grupo (e os outros claro).
A missão de observadores da ONU, liderada pela Suécia, necessita de pelo menos duas a três semanas para conhecer os resultados das amostras que conseguiu recolher. As amostras poderão não apontar conclusivamente um culpado mas permitirão saber o meio usado para o lançamento das armas de destruição massiva e com isso apontar com alguma certeza o culpado. O ambiente da reunião não seria o melhor dada a situação económica mundial e a crise. As economias da zona euro e dos EUA entraram em crescimento, espera-se que em breve as taxas de juro nos EUA possam subir, o dólar conhece pequenos ganhos em relação ao euro. Nos EUA o emprego tem subido na sequência desse crescimento mas necessita de subir ainda mais enquanto a Europa tem de suster o desemprego sem precedentes e os restantes países necessitam de criar postos de trabalho. A crise síria e a ameaça americana em atacar alvos naquele país apenas serviram para adensar o clima.
A maior crise parece porém estar no choque entre Obama e Putin. Mesmo perante a situação que se vivia quinta-feira não estava prevista uma reunião entre os dois homens. A China optou desde o momento da chegada por um encontro entre os dois Presidentes para debaterem o eventual ataque americano à Síria e as consequências desse ataque. No final os chineses foram peremptórios, colando-se à posição russa: a decisão desse ataque só poderia ser tomada pelo Conselho de Segurança da ONU. De contrário seria uma violação do Direito Internacional. Pequim foi porém mais longe admitindo desde logo que uma crise no Médio Oriente iria fazer subir o preço do petróleo e consequentemente agravar a queda sentida pelo PIB chinês.
Com a China claramente ao lado da Rússia os europeus dividiam-se, Durão Barroso falava na necessidade de uma solução política, apoiado pelo presidente do Conselho Europeu e a Itália entre outros, enquanto Hollande estava ao lado de Obama, confortados moralmente por Cameron cujas ilusões intervencionistas foram travadas pelo Parlamento de Westminster. Índia e Indonésia mantinham-se em silêncio enquanto África do Sul, Argentina, Brasil e México manifestavam a sua oposição.
Vladimir Putin não podia nem queria ignorar a questão. Fora da agenda o Presidente russo colocou-a formalmente na agenda do jantar sem que isso influenciasse o debate na sala de reuniões e fosse a agenda nos corredores em vez das tradicionais conversações para a obtenção de um consenso para o documento final sobre a forma como seria sustida a crise económica e relançada a economia. A inextrincável ligação entre a economia e o risco de confronto no Médio Oriente é agravada pela quase incapacidade de diálogo entre americanos e russos. Os chineses foram claros quando o ministro-adjunto das Finanças Zhu Guangyao sublinhou que “qualquer acção militar tem um impacto negativo na economia global e em particular no preço do petróleo”, aumentando o risco de abrandamento das economias emergentes.
No momento em que esta crónica é escrita nada de positivo saía de São Petersburgo relativamente à questão síria. Tudo indicava que se iria perder mais uma oportunidade. O apoio de Putin a qualquer iniciativa dependia apenas de os EUA esperarem o relatório dos observadores suecos da ONU e apresentarem ao Conselho de Segurança uma proposta derivada dessas conclusões.
Se Vladimir Putin se mostra inflexível a verdade é que Obama não ajuda. A credibilidade das provas americanas já foi posta à prova com as armas de destruição massiva no Iraque. Será que a Casa Branca acredita mesmo que é possível uma acção limitada, cirúrgica? Um elefante numa loja de porcelana. E quanto a não influenciar o equilíbrio entre os combatentes no terreno? McCain já deixou claro que esse era precisamente o objectivo.
Em menos de uma semana os americanos puserem em causa bastante mais que a sua credibilidade.