terça-feira, 13 de agosto de 2013

Barack Obama e Putin recordam a guerra-fria


Benjamim Formigo |
13 de Agosto, 2013

Desde sempre que os democratas têm as piores relações com Moscovo. Ao contrário dos republicanos, os democratas têm uma tendência quase abismal para mostrarem o seu conservadorismo através da dureza com o Kremlin. Nunca resultou.
Ao recusar o convite de Putin para um encontro à margem do G-20 no próximo mês de Setembro, Obama recusa também uma oportunidade de debater com Putin a situação na Síria e no Médio Oriente, de analisar em privado a situação da economia real do mundo, a proliferação de armas nucleares e o caso Snowden.
Na ultima cimeira em que Obama se encontrou com o antecessor de Putin, Dimitri Medvedev, a indiscrição das câmaras deixou conhecer um recado de Obama “depois das eleições” e a receptividade russa “direi isso a Vladimir”. Parecia então que Obama fazia o papel de duro para consumo interno e estava aberto a debater com os russos as questões pendentes desde a queda do Muro de Berlim, uma das quais a instalação de um sistema antimíssil na Europa que Moscovo vê como uma ameaça.
O anticlímax foi total. A Europa anulou-se, os antigos satélites soviéticos encostam-se à OTAN como se o inimigo sempre tivesse estado a Leste. Os Estados Unidos gozando da sua supremacia militar envolveram-se em acções militares que nos tempos da URSS não ousariam fazer. As relações, ou melhor a pobreza ou a falta de qualidade nas relações entre Washington e Moscovo tem sido um dos obstáculos à concertação de esforços para a prevenção de problemas na cena internacional.
O caso Snowden é apenas o último episódio de uma cadeia de acontecimentos que não teriam ocorrido com um Presidente que não necessitasse de reafirmar o seu conservadorismo, que não tivesse o complexo democrático de ser visto como um falcão. Não sei o que se teria passado com George W. Bush, mas se virmos as relações durante o período George Bush (pai) ou mesmo Clinton, em nada se comparam à situação actual que recorda os tempos da Guerra-Fria.
A realidade é que o caso Snowden não trouxe nada de novo ao que se sabia desde o Echelon. Os Estados Unidos espiavam (vamos chamar as coisas pelos nomes) os seus próprios aliados. Motivos comerciais, é evidente, mas as questões de segurança também estão na agenda nas agências americanas. E se (ou quando) Washington escuta os seus aliados fá-lo porque a sua segurança sempre esteve acima dos aliados. A própria OTAN e o empenho americano na Europa durante a Guerra-Fria são o exemplo mais acabado. A Europa, e designadamente a então República Federal da Alemanha eram o campo de batalha avançado dos americanos. Os mísseis nucleares de médio alcance eram um meio de manter uma escalada nuclear fora do território americano e do soviético. Snowden apenas foi um embaraço porque disse publicamente aquilo que os Governos sabiam e calavam numa cumplicidade de conveniência com os Estados Unidos. Dadas as relações entre EUA e Rússia que desceram para um patamar quase do tempo da Guerra-Fria, Vladimir Putin não teve qualquer hesitação em dar ao antigo funcionário da NSA (o topo da informação norte-americana) o apoio que entendeu necessário e suficiente. Assim, e sem pretender abraçar qualquer teoria da conspiração, não se pode deixar de olhar quase como pueril, o alerta terrorista em que Washington colocou durante uma semana algumas das suas missões diplomáticas, ajudados por alguns europeus que embandeiraram em arco.
Na realidade, desde o início que se levantou a interrogação sobre os motivos que levaram Washington a fazer tanto alarde da alegada intercepção de mensagens entre células da Al Qaeda que há uma eternidade estavam silenciosas. Ao fazê-lo os americanos fizeram o que criticam em Snowden: revelaram o tipo de mensagens que interceptam e deram novas indicações das suas capacidades. Snowden ao fazê-lo colocou alegadamente em causa a segurança dos Estados Unidos.
Para os aliados escutados receber essas informações, e de forma tão publica, terá sido a evidência da preocupação de Washington com a segurança dos amigos. Seria hipócrita não questionar o que se passou e está a passar.
A questão de fundo permanece. Os Estados Unidos não conseguiram desde a queda do Muro de Berlim e após o folclore de Boris Ieltsin ter um Presidente que na linha de conservadores americanos foram capazes de lidar e negociar com o Kremlin. Todas as outras razões que são apontadas não passam de música celestial apesar de no Kremlin não ser hábito haver meninos de coro.