8 de Julho, 2013
Quando em 2011 a chamada “primavera árabe” abalou o Norte de
África com gáudio de muitos e reservas de outros tantos as alterações
no Egipto assumiram desde logo os contornos mais importantes.
Um dos países mais populosos de África, com 84 milhões de habitantes, e o 15º mais populoso do Mundo, dispõe do maior Exército de África e de uma elite intelectual desproporcionada em relação à sua população. A sua influência no Médio Oriente é inegável como inegável é o seu papel no equilíbrio de forças na região e na relação árabe com Israel.
O Ocidente assobiou para o ar enquanto a tal primavera varria um atrás do outro os países da região. O primeiro caso a dar para o torto foi o da Líbia e ainda estamos para ver como irá evoluir. No Egipto a Irmandade Muçulmana banida e reprimida durante décadas era a única força politicamente organizada. As eleições democráticas que os egípcios abraçaram após noite de protesto na Praça Tharir levaram à Presidência Mohamed Morsi e a Irmandade Muçulmana.
Morsi durante os seus dois anos de mandato preocupou-se em consolidar as posições da Irmandade e pouco com a governação. A situação económica e financeira do país foi-se degradando ao ponto de não haver liquidez para importar o combustível necessário à produção de energia. Progressivamente foi introduzindo e tentando introduzir na Constituição regras islâmicas, contrariando a tradição laica do Estado.
A elite intelectual foi denunciando e protestando contra as medidas e as tentativas sem grande resultado. Mas na verdade foi a incompetência do seu Governo onde a Irmandade Islâmica pontificava que levou às grandes manifestações de rua que ditaram a intervenção militar.
Para trás ficaram casos como a nomeação como governador de Luxor – o mais importante centro turístico do país - um militante islâmico, Abdel al-Khayat. Al-Khayat militava no grupo radical islâmico que em 1997 reivindicou o massacre de 58 turistas precisamente em Luxor, provocando uma quebra brutal na receita turística. O turismo representava dez por cento das receitas externas do país e a imagem do retorno da estabilidade estimularia o turismo, a forma mais rápida e de baixo investimento que o Egipto tinha de aumentar as suas receitas em divisas.
A introdução de uma norma que estabelecia o fecho dos restaurantes, cafés, bares e locais turísticos, mas também de concentração de jovens e intelectuais às 22 horas não podia ser menos desastrosa numa capital onde existem engarrafamentos durante a madrugada.
O Presidente agora deposto pelos militares confundiu a sua eleição democrática com um mandato para governar de forma autocrática, ignorando a oposição e islamizando a estrutura legislativa do Estado. As manifestações de rua e o descontentamento instalaram-se e os militares – que ainda em Novembro de 2012 garantiam se iriam manter à margem – vieram a terreiro dar 48 horas a Mohamed Morsi para encontrar uma plataforma de entendimento com outras forças políticas advertindo que se não o fizesse eles determinariam a agenda política. Morsi cometeu um erro de avaliação, os militares mantiveram a sua palavra.
O Presidente eleito foi deposto perante alguns protestos vagos da União Europeia e dos Estados Unidos mas veementes da Turquia onde a situação política encontra algumas semelhanças.
Os Estados Unidos evitam o uso do termo golpe de Estado. Fazê-lo seria reconhecer uma situação que perante a lei americana obrigava à suspensão do programa de auxílio militar de 15 mil milhões de dólares.A situação complicada no Egipto vem levantar uma questão: a compatibilidade ou não entre o Islão e a democracia. A tese da democracia islâmica que alguns Estados tradicionalmente laicos se sentem tentados a abraçar, da Turquia ao Paquistão ou Indonésia, está seriamente posta em causa.
A inabilidade da Irmandade Islâmica para encontrar um equilíbro – se alguma vez o quis - no Egipto abriu essa porta. Uma outra questão deve ser equacionada: a juventude, que na década de 80 do século passado, na onda da invasão do Líbano por Israel, em 1982, se entregava à militância islâmica e hoje parece, sublinho parece, mais tentada a olhar o seu próprio futuro e uma imagem de liberdade que lhe chega, e muito, através das redes sociais.