terça-feira, 23 de julho de 2013

Crise em Portugal suspensa até aos próximos episódios


Benjamim Formigo|
23 de Julho, 2013

 Após o regresso da visita às Ilhas Selvagens, o Presidente Cavaco Silva, confrontado com a impossibilidade de um “acordo de salvação nacional” optou pela decisão que há duas semanas havia recusado: dar o seu apoio expresso ao actual Governo remodelado.

Solução que lhe fora proposta pelo primeiro-ministro Passos Coelho logo no final da primeira semana de crise.
Portugal viveu três semanas de instabilidade, viu os juros da sua dívida subir nos mercados secundários e o valor bolsista das suas empresas cair. No final o país acabou por ver aceite a proposta avançada pelo actual Governo, e na altura recusada por omissão pelo Presidente Cavaco Silva, que chegou a colocar o Executivo a prazo. Nada garante que a presente aceitação não seja mais que um intermezzo até à próxima crise.
A miopia parece dominar a política portuguesa, em especial o partido maioritário da coligação, que se apresentou em conversações com os socialistas defendendo as mesmas políticas de austeridade que levaram ao empobrecimento do país e à degradação do poder de compra, aumento brutal do  desemprego, queda do mercado interno, quebra nas receitas fiscais e consequente incontrolabilidade do défice combatido pelo demissionário ministro das Finanças Vítor Gaspar através do aumento de impostos, dos cortes salariais na função publica e aos pensionistas. Recorde-se que a demissão de Vítor Gaspar iniciou a crise. O primeiro-ministro Passos Coelho nomeou em sua substituição Maria Luís Albuquerque como solução de continuidade, ignorando a oposição do seu parceiro de coligação Paulo Portas. Foi então que Paulo Portas apresentou a sua (não tão) “irrevogável” demissão, fazendo tremer a coligação.
A solução avançada pelo Presidente, escrevemos na altura, não teria viabilidade. Se Passos Coelho não soube ouvir nem negociar nos dois anos que está no poder, não iria aprender a dialogar na última semana só porque o Presidente o queria. Passos Coelho desafiou literalmente o Chefe do Estado quando afirmou no Parlamento que  levaria até ao fim a legislatura para que foi eleito. Mais tarde, durante as negociações com os socialistas, o seu representante aceitou o principio de eleições em Junho/Julho de 2014, uma exigência do Presidente Cavaco Silva. As conversações estavam condenadas à partida porque Passos Coelho nunca deu mostras de diálogo ou de se importar sequer com a opinião do seu parceiro de coligação. Do CDS aceitou o inevitável para manter a coligação – embora o secretismo tenha sido tal que ninguém sabe exactamente o que foi discutido, a não ser o observador da Presidência presente em todos os encontros, também ele um homem do PSD. A verdade é que as conversações para o tal “Acordo de Salvação Nacional” se iniciaram num momento propício a reformas e renegociações com a troika – FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.