2 de Julho, 2013
Quem se lixa, já se sabe, é o mexilhão.
No Qatar, na semana passada, os “amigos da Síria”, Estados Unidos, União Europeia, Qatar e outros aliados árabes por onde não passou (mas receiam) a tal primavera, optaram pela continuidade de apoio aos rebeldes – a uma facção considerada “moderada” – sem descurarem a tal solução política, nem as críticas unilaterais ao Presidente Assad e ao seu regime.
As cadeiras não tinham ainda sido retiradas da sala da conferência e já algumas vozes na União Europeia faziam saber que iria aumentar o fornecimento de armas aos rebeldes. Contrariamente ao que se esperava, Obama não ficou atrás, deixando saber que Washington faria o mesmo. Como seria de esperar, Moscovo protestou de imediato, garantindo que se tal sucedesse aumentaria também o seu apoio em material militar ao regime de Bashar Al Assad.
Os EUA têm vindo a tentar evitar que mísseis portáteis, do tipo “Stinger”, guiados por infravermelhos, fossem enviados para os rebeldes sírios, com receio que viessem a cair nas mãos de organizações que constam da sua lista de terroristas que operam na Síria ao lado da rebelião contra o Governo.
Os apelos e as advertências americanas de pouco serviram. Desde o início deste ano existem informações de vários serviços secretos de que o Qatar tem usado redes clandestinas para fazer chegar estes mísseis aos rebeldes. Segundo o “New York Times”, pelo menos dois carregamentos teriam sido entregues. Através da extensa fronteira turca têm passado armas de diferentes tipos e sabe-se que muitos lotes têm ido parar às mãos de grupos islâmicos radicais, alguns mesmo considerados com ligações ao terrorismo e à Al Qaeda. Mais discretos, os russos, como os iranianos, compensam o Governo de Assad com novo material.
A Síria, de facto, está a ser o teatro de operações de um conflito indirecto que envolve os Estados Unidos, o Irão e a Rússia. Os políticos, porém, não assumem um conflito com Moscovo, antes sublinhando uma colaboração recente nos corredores da ONU e na sala do Conselho de Segurança.
Moscovo não quer perder uma área de influência no Médio Oriente e Mediterrâneo, muito menos para os radicais islâmicos, melhor organizados e mais ofensivos que as restantes milícias, tal como o Irão não pretende perder a sua porta na região.
Washington, por seu lado, definiu uma estratégia que passa por travar o Hezbollah, o Hamas e outros grupos com influência desde o Golfo ao Líbano no território sírio. O problema é que não parece ter ideia de como travar a influência islâmica depois de Bashar Al Assad. Os actores exteriores à região parece terem-se entendido sobre a inevitabilidade de uma solução política, mas não sabem como. Do mesmo modo, Moscovo e Washington não querem outro Egipto e menos ainda outra Líbia, mas também não sabem ou não se entendem sobre como evitar, sobretudo, quando o diálogo com o Irão (indispensável) é impensável para os Estados Unidos, que não esquecem a crise dos reféns nem o desaire da tentativa do seu resgate.
O mesmo não se pode dizer, claro, de já terem esquecido o empurrãozinho iraniano que concordou em só libertar os reféns depois de Ronald Reagan ser eleito e que foi uma fonte de abastecimento de armas para os “Contras” da Nicarágua, o caso “Irangate”. Teerão tem de ser chamado a representar nesta peça dramática, se de facto quiserem chegar a uma transição política controlada.té lá, os actores externos vão fornecendo a ambos os lados as armas necessárias e suficientes para que nenhum dos lados consiga a supremacia militar. Assim, é inevitável o prolongamento do confronto até todos estarem de acordo, ou até à exaustão de um povo, ou até uma intervenção cada vez menos provável de uma Turquia com problemas internos crescentes.
Os refugiados e os deslocados crescem dia a dia. Quem se lixa, já se sabe, é o mexilhão.