segunda-feira, 24 de junho de 2013

Contestação anunciada no Brasil


Benjamim Formigo |
24 de Junho, 2013

A contestação que há uma semana se apoderou das ruas das principais cidades do Brasil não seria inesperada.
 A situação social do país deixava antever que haveria um ponto de ruptura. O aumento do preço dos péssimos transportes públicos foi apenas a gota de água.
Os brasileiros deixaram de ir em futebóis. As promessas da Presidente Dilma Rousseff de canalizar para a Educação a totalidade das receitas petrolíferas caíram em saco roto, a garantia de importação de um milhar de médicos para o sistema de Saúde foi uma manobra demagógica para quem espera há muito. Na verdade a questão das receitas da exploração de petróleo são cada vez mais disputadas pelos governadores estaduais com projectos próprios, alguns na área social; a importação de médicos não é uma resolução dos problemas do sistema de saúde. O sistema de saúde não gira em torno dos médicos, um erro comum dos políticos, os médicos têm uma importância tão relativa como a dos enfermeiros ou dos técnicos de diagnóstico.
O Brasil tem médicos e tem enfermeiros e um sector privado ávido de receitas e de profissionais. O país não tem, queixam-se os manifestantes nas ruas, hospitais e centros de saúde em quantidade e qualidade.
O Brasil tem professores, e uma generosa e correcta política de concessão de bolsas para mestrado e doutoramento na Europa, designadamente em Portugal. O país carece porém, queixam-se de novo os manifestantes, de infraestruturas de ensino e investigação. O que tem é insuficiente. O Brasil é um gigante geográfico, demográfico e a sua economia pesa mais do que qualquer outra latino-americana.
Pela sua dimensão tudo o que o país tem é pouco. Desde 1994, com a eleição de Fernando Henrique Cardoso (que passou com sucesso pelo Ministério das Finanças), o Brasil conheceu a estabilidade monetária e abandonou a hiperinflação ruinosa para a economia.
Ao mesmo tempo estavam lançadas as bases para um desenvolvimento sustentável. Henrique Cardoso passou o testemunho a Lula da Silva e o país mudou de Presidente e de orientação ideológica mantendo contudo a estabilidade económica e desenvolvimento consolidando a estabilidade política indispensável. Em 2010 Dilma Rousseff foi eleita com o apoio do carismático Lula da Silva e do seu partido. A esquerda alcançava o segundo mandato.
Em retrospectiva dir-se-á que Lula deu continuidade ao trabalho de Fernando Henrique Cardoso e Dilma não se afastou deste caminho. Apesar de serem muitos os detractores do ex-Presidente Lula, a evidência mostra que a classe média engrossou com o enriquecimento de uma importante parte da população. O investimento do Estado, a estabilidade política e macroeconómica desde 2003, contribuíram decisivamente para atrair enormes fluxos de capital estrangeiro e aumentaram o investimento interno levando o crescimento aos 7,5 por cento em 2007. A dívida externa do país tornou-se irrelevante e em 2008 o Brasil foi atingido pela crise financeira e económica global. Altamente dependente das suas exportações mais do que do seu mercado interno o país sentiu o impacto da crise que fez abrandar o crescimento para os 1,3 por cento em 2012. Contribuiu também para este abrandamento, e de forma importante, a necessidade que o Governo sentiu de fazer “arrefecer” a economia para suster a inflação e o crescente fluxo de capitais externos que valorizaram o real, contribuindo mais ainda para afectar as exportações, tornando-as menos competitivas por via cambial.
Em paralelo o Governo não conseguiu pôr em movimento uma política social que respondesse à crescente exigência de uma população cada vez mais urbana. Ao mesmo tempo cresciam os casos de corrupção no país.
O Brasil, carismático país do futebol, abraçou um conjunto de eventos desportivos, incluindo os Jogos Olímpicos, que implicaram avultados investimentos em equipamentos desportivos cujos orçamentos derrapam constante e continuadamente à custa de dinheiros públicos.
O anunciado aumento dos transportes entrou numa receita explosiva. O número de jovens que se apoderou das ruas das cidades brasileiras foi inesperado. O custo dos transportes passou em menos de 24 horas para segundo plano e o descontentamento social tornou-se o motivo dos protestos que o Governo não antecipara. Neste momento não é fácil perspectivar o fim dos protestos. A Presidente Dilma Rousseff tentou na televisão fazer o mesmo que Lula noutras ocasiões: ser Poder e Oposição. O que lhe faltou em carisma sobrou em crise social e a sua intervenção caiu em saco roto, foi ouvida e menosprezada como promessa vazia pelos insatisfeitos. Uma coisa contudo ficou da sua intervenção e as vozes na rua tiveram de o reconhecer: os protestos queriam-se (querem-se) pacíficos como é normal em democracia; porém como também é normal em democracia os protestos livres (não enquadrados por forças políticas ou sindicais) são facilmente infiltrados por elementos desestabilizadores porque violentos.
No Brasil como em muitos outros países afectados pela crise mundial surge o mesmo sentimento de descrença nos políticos, a desconfiança naqueles que gerem a coisa pública.
O Brasil, só por si, tem mais população e peso económico que a maioria dos outros afectados pela crise: foi a sétima economia mundial em 2012; no continente americano só os EUA tiveram um PIB superior ao brasileiro.
Quando assentar a poeira nas ruas do Rio, São Paulo e por aí fora, Dilma Rousseff tem em mãos um problema que nenhum Chefe de Estado inveja e qualquer político receia.