quinta-feira, 16 de maio de 2013

Conferência internacional e ameaças de força na Síria


Benjamim Formigo|
16 de Maio, 2013

Alguns meses atrás tem sido defendido neste espaço que a questão síria não passa pelas ingerências mas pela necessidade de levar as várias partes envolvidas a sentarem-se à mesma mesa sob o patrocínio (leia-se vigilância) das potências que podem influenciar o desenrolar dos acontecimentos.
Washington e Moscovo concordaram finalmente em apelar e insistir na necessidade dessa conferência. Insistir não chega.
Se Moscovo poderá ter alguma influência junto do Governo de Damasco, já Washington tem uma limitada influência e apenas junto da oposição no exílio e não da oposição combatente, muito menos dos grupos fundamentalistas, alguns considerados terroristas por Washington.
A caldeirada está montada após tantos e tantos meses de indecisões, contradições e incapacidade de compreender ou procurar compreender que a “primavera árabe” nunca chegou a ser.
Em paralelo com as intenções negociais vindas de Washington e Moscovo, na Turquia, perto da fronteira, carros armadilhados explodem causando um número indeterminado de mortos e feridos. Os atentados não são reivindicados mas o Governo de Ankara não hesita em acusar Damasco e ameaçar com retaliações.
Para trás ficaram as acusações de utilização de armas químicas alegadamente pelas forças leais ao Presidente sírio depois de um membro da comissão de inquérito da ONU ter apontado o dedo aos rebeldes ou a um grupo rebelde.
Israel viu-se na obrigação de intervir antes que os Montes Golã se transformassem palco de confronto e a sua segurança fosse ameaçada. Por entre tudo isto, militares da ONU foram raptados por extremistas e libertados dias depois. Com toda esta caldeirada, que foi apurando ao longo de mais de um ano de confrontos, não é difícil acreditar que o caldo está bem fácil de entornar.
Com a pressão dos refugiados ao longo da fronteira comum, a sua disponibilidade para dar guarida e apoio a um conjunto de rebeldes e/ou dissidentes sírios, a ameaça curda bem perto da zona de confrontos, um potencial militar considerável, uma sub-cultura militar, um regime que se autoproclama secular e a crescente influência religiosa na sociedade, a Turquia tem todas as condições potenciais para querer intervir.
Falta-lhe o apoio expresso dos EUA, dos seus aliados da OTAN, que se veriam envolvidos, mesmo indirectamente no conflito, e da União Europeia, de que Ankara pretende fazer parte.
A reunião da conferência internacional pode verificar-se bem mais difícil de realizar do que de propor. E realizando-se, qual a sua representatividade real? Para Damasco, que não hesitará em participar, é uma ocasião única para lançar as responsabilidades sobre a oposição.
Para a oposição no exílio, participar é um imperativo de reconhecimento. Contudo, a oposição no exílio representa apenas, mesmo assim de forma limitada, uma facção da oposição armada no interior.
Como levar até à mesa das conversações os representantes de grupos radicais, alguns na lista de terroristas procurados pela CIA é uma questão que raia o surreal, sobretudo se tivermos em conta que o único país capaz de ter essa influência, e mesmo assim com reservas, é o Irão.
Mais uma vez, neste período pós Guerra Fria, deixaram o génio sair da garrafa, quem é que o volta a meter?