7 de Abril, 2013
Desde o último teste nuclear norte-coreano e os testes
balísticos do passado mês, a rectórica belicista de Pyongyang tem
subido de tom, levando a crer que se está num ponto de não retorno no
conflito que dividiu a península nos anos 50 do século passado.
Num país com a dimensão da Coreia do Norte este tipo de operação nem sequer requer muitos meios nem o recurso a armas nucleares táctitas e menos ainda estratégicas. No tempo da URSS os mísseis móveis SS-20 e família, pela sua mobilidade e num território tão vasto, eram uma preocupação. No caso de um pequeno país, como a Coreia do Norte, não sendo a dor de cabeça da Guerra Fria são um problema grave a ter em conta. Os sistemas antimísseis existentes não são particularmente fiáveis na intercepção, daí que a sua destruição antecipada seja a opção mais apelativa. Tratando-se, porém, da neutralização de vectores móveis, é imperioso que todos sejam destruídos quase em simultâneo, pois a sobrevivência de um vector permite uma acção retaliatória coreana com efeitos potencialmente graves. Uma outra opção, a neutralização da cadeia de comando, comunicações e controlo, só seria eficaz se as ordens de lançamento, objectivos e outros aspectos não estivessem ainda distribuídos.
Este tipo de confronto nada tem em comum com o Iraque ou Afeganistão, dada a dimensão territorial em causa, contudo a exacerbação nacionalista e o culto dos líderes passados – o actual não se sabe bem onde pretende estar – as histerias de massa conseguidas pelo regime levam à estruturação de um ataque (“first strike”) violento, demolidor e que quebre qualquer moral ou veleidade de retaliação a Sul do Paralelo 38. Os meios estão à disposição dos Estados Unidos e dos seus aliados geograficamente mais próximos: Japão e Coreia do Sul. Sem contar os mísseis de cruzeiro lançados a partir de submarinos, estão já posicionados os novos F-22 americanos, os bombardeiros invisíveis e um número indeterminado de porta-aviões e frotas de apoio. O recurso à arma nuclear por parte dos EUA não é, portanto, uma primeira opção, considerando a possibilidade de apagar do mapa os vectores nucleares norte-coreanos e em simultâneo abater o fanatismo em torno de um líder.
Assim sendo, levanta-se em primeira análise uma questão: a verdadeira posição da China e logo a seguir a de Moscovo.
Publicamente, Pequim tem condenado Pyongyang no Conselho de Segurança das Nações Unidas, contudo não há notícias de que tenha ido além de uma discreta pressão sobre o seu aliado norte-coreano. Numa lógica geoestratégica, concentrar as atenções na Península Coreana e, consequentemente, forças militares, é uma boa forma de conhecer a capacidade de mobilização e reacção dos EUA e seus aliados e de testar a sua determinação na defesa dos interesses americanos na zona Asia Pacifico. Contudo, o conflito pode ser considerado ameaçador porque Pequim e Washington têm de ter em conta esse factor, bem como a possível reacção do único aliado de Pyongyang à crescente ameaça americana que se estende por todo o Pacífico e irá ter implicações nas águas do Mar da China.
A Rússia, por seu turno, não gosta nada de ver os americanos movimentarem-se perto de casa, mas aprendem com esses movimentos. Moscovo não esconde o desagrado com a retórica belicista de Kim Jong-Un, todavia deixa que continue a ser abordado como um problema chinês, ficando Pequim com o ónus de conseguir ou não controlar o seu aliado, a quem facultou a tecnologia nuclear.
Por fim, a questão da chantagem norte-coreana: a suspensão de testes nucleares e enriquecimento de urânio em troca de auxílio económico, alimentar e financeiro. Resultou no passado. Resultou, mas com líderes menos imaturos e que nunca levaram tão longe, ao absurdo mesmo, as jogadas que fizeram no xadrez estratégico. Seria muito pouco provável assistirmos a um acordo semelhante na actual conjuntura económica e financeira mundial e depois de Kim Jong-un e os seus associados terem ido tão longe. Só a China poderia conduzir um processo desse tipo, porém é menos do que claro que os vizinhos da Coreia do Norte assinassem um cheque sem verem a destruição do arsenal nuclear do país e a submissão das suas centrais de processamento de urânio submetidas a um apertado controlo internacional.
Um questão crucial vai permanecer em aberto em paralelo com a movimentação diplomática que alguém tivesse a habilidade de inventar: a possibilidade estatística de conseguir destruir de uma só vez as armas nucleares norte-coreanas em posição e em stock. Existe quem pague para ver?
Soluções fora do contexto militar, de momento pelo menos, não se vislumbram.