23 de Abril, 2013
Os actos criminosos de Boston enquadram-se na mais pura
definição de terrorismo, um terrorismo sem objectivos, porque
inconsequente, um terrorismo sem alvos, porque só atingiu civis
inocentes, um terrorismo criminoso, porque apenas espalhou confusão,
medo, morte.
O verdadeiro terror psicológico infundido pelos actos de violência indiscriminada levam muitos a prescindir de princípios teoricamente inabaláveis e pelos quais lutaram gerações e se travaram guerras.
A forma como alguns “media” mais conservadores se apoderaram, na década de 60 e 70 do século passado, da terminologia do poder abriu as portas a uma confusão inaceitável. Os movimentos de libertação que desde essa altura lutaram à margem dos confrontos tradicionais (caso da OLP) ou na guerrilha (de Chipre, onde foram executados pela forca dezenas de combatentes, a Angola) foram facilmente qualificados como terroristas. Agora o mesmo termo se aplica a radicais islâmicos e até a criminosos como os de Boston. Ora é importante ter presente que existe uma diferença fundamental entre os primeiros e os últimos, afinal a radicalização conservadora dos termos levou a uma perigosa confusão. Uns lutavam pela liberdade a independência, valores consagrados internacionalmente. Os outros apenas levam os cidadãos a destruir ou deixar que se destruam as liberdades e os direitos adquiridos ao longo de mais de meio século.
Para além do Direito o terrorismo tem conseguido de facto uma outra vitória dentro das sociedades. A sua identificação árabe, muçulmana e/ou islâmica está a estigmatizar comunidades pela sua origem e/ou prática religiosa. Não se trata de uma “guerra santa” de cristãos contra muçulmanos ou vice-versa, conforme o ambiente maioritário, trata-se da instalação inconsciente do medo e ódio decorrentes de actos criminosos indiscriminados.
A luta contra este terrorismo não está apenas nas mãos do Poder. O Cidadão enquanto comunidade tem de assumir essa guerra e não permitir que o seu património moral seja delapidado.
A continuarem estas vitórias insidiosas ir-se-ão acentuando os actos discriminatórios raciais e a estigmatização religiosa; a Imprensa perderá a sua objectividade abrindo as portas ao discurso do poder, em especial a televisão.
A informação/espectáculo, tanto do agrado das televisões, é uma arma que os terroristas, e sobretudo os seus mentores, sabem aproveitar a seu favor. Boletins informativos directos dos acontecimentos transformaram a informação em espectáculo. Do outro lado do ecrã, em doentio encantamento, o espectador “vive” o que são os verdadeiros momentos de glória do acto de terror. No dia seguinte o cidadão está pronto para aceitar ou votar medidas que limitam os seus direitos preparado para olhar com desconfiança para outras raças e credos. Esta é a verdadeira forma de cercear as vitórias insidiosas do terrorismo. Vitórias bem mais perigosas que o acto criminoso.
O acto criminoso extingue-se com a acção; as vitórias insidiosas têm efeitos de médio prazo que perduram a muito longo prazo.