6 de Março, 2013
A manifestação de 2 de Abril, em Portugal, que levou para a
rua um milhão de pessoas pela segunda vez em seis meses, a “euromanif”
de Novembro passado, os protestos que se intensificam em Espanha, e os
resultados das eleições em Itália não devem ser lidos isoladamente.
Em Portugal os eleitores vieram à rua em 40 cidades, em especial Lisboa e Porto. A polícia, ao contrário do habitual, recusou avançar estimativas que ficaram a cargo de alguns órgãos de informação em perda de credibilidade e audiência. Um milhão de pessoas é um número que não é contestado pelos detractores embora fique aquém da estimativa da organização.
A “manif” portuguesa de 2 de Abril, como a de Setembro, foi convocada por cidadãos politicamente transversais ao espectro partidário. Foi essencialmente uma manifestação contra. Contra o Governo, cujas previsões e estimativas falham uma após a outra, contra a “troika” (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI) cujas recomendações têm estrangulado a economia e aproximado o desemprego do milhão da população activa (o desemprego real é superior) e cujos planos têm sido fracassos redundantes. Os cidadãos deixaram de se identificar não só com o Governo que elegeram como com os partidos políticos que os representam no Parlamento. Existe um sentido de descrença semelhante ao que levou os italianos a dar 25 por cento do eleitorado a um humorista que acintosamente criticou a partidocracia convencional.
A Itália, com maiorias divididas em ambas as Câmaras não conseguiu até agora formar um Governo e não seria de espantar se viesse a ter novas eleições.
Em Espanha o Governo tem evitado o recurso ao programa de assistência externa, do mesmo modo que a Itália, com a imposição das medidas que os credores internacionais gostam de ver e que foram exigidas à Irlanda, Grécia e Portugal. A queda, ou recurso à assistência internacional da terceira economia europeia (Itália) ou da quarta (Espanha) acentuaria de forma inaceitável e talvez mesmo insustentável a instabilidade da zona euro. De um modo geral a banca é apontada como beneficiária e ao mesmo tempo causadora da crise. Não vamos debater essa asserção embora seja claro que o capital (para usar a linguagem precisa de Karl Marx) é quem ganha. Porém o oportunismo dos novos ricos da política, aqueles que nunca tiveram de se bater por nada, se alia aos interesses de alguns que muito beneficiaram da exploração e de posições retrógradas ao serviço de terceiros.
O debate seria imenso. Num relance pela Europa, de onde tradicionalmente partiam os grandes movimentos e as grandes causas, verificamos o desaparecimento de forças importantes desde o pós guerra ou a implantação da democracia: o PCI (Partido Comunista Italiano) e dos seus homólogos francês e espanhol; em Itália saiu de cena o Partido Socialista que em muitos outros países está a ser triturado por duas razões: nuns por ter assumido valores de direita, na convicção de que assim se manteria acima do nível de água, noutros por a direita ter capitalizado nas crises geridas pelos socialistas com filosofias capitalistas. Mas também porque desaparecem as gerações dos grandes momentos.
A geração das lutas antifascista, antinazi, anticolonial, anticapitalista está a sair de cena para dar lugar a uma geração ansiosa e ambiciosa de poder. Se passarmos para o Brasil, por exemplo, verificamos que o Partido Comunista que criou Lula da Silva nada tem em comum com o dos tempos dos golpes militares. Na Ásia nem socialistas nem comunistas, apenas capitalistas mais ou menos hábeis ao serviço de uma palavra que caiu em desuso: o imperialismo.
A terminologia tem de ser marxista, mesmo que o autor não o seja, porque depois de Marx não foi feita uma nova caracterização das relações, nem entre trabalho e capital, nem entre Estados – Nações. Por isso, neste momento, por enfastiante que “O Capital” possa ser, vale a pena dar-lhe uma vista de olhos.
Por tudo isto os cidadãos sentem-se ludibriados com o sistema que os representa e procuram alternativas na transversalidade. Por enquanto numa transversalidade nacional, mas surgem indicações que se poderá tornar transfronteiriça com todos os riscos mas também benefícios decorrentes.
O Mundo hoje não deve ser pensado nacionalmente mas globalmente, no mínimo regionalmente, tendo como referência os erros da construção europeia totalmente baseada no modelo neoliberal.