Benjamim Formigo
28 de Março de 2013
Uma cultura de Paz em África não está na agenda das grandes potências exploradoras de matérias-primas, ciosas de manter ou conseguir posições geoestratégicas, nem dos grandes grupos financeiros que procuram o controlo da riqueza gerada.
África dispõe de algumas das mais antigas organizações internacionais. A OUA (inicialmente) de coesão nem sempre exemplar, a SADC cuja coesão se tem vindo a cimentar fruto em muito da iniciativa angolana, o ECOWAS onde a Nigéria tem procurado pontificar, entre outras.
No Continente proliferam porém conflitos, muitos causados por ingerências externas, que provocam uma imagem de inconstância e em nada contribuem para a estabilidade, o crescimento e o aproveitamento dos vastos recursos no desenvolvimento social e económico. A fracassada “primavera árabe” no Norte ameaça estender-se para Sul graças às armas sem controlo distribuídas quando do derrube dos regimes na Líbia, Egipto, Tunísia. O Mali foi já vítima dessas armas e continua a sê-lo. Na República Centro Africana um recente golpe de Estado ameaça desequilibrar a zona. No Sudão, mesmo depois da secessão os confrontos continuam. Na Guiné-Bissau parece que ninguém é capaz de se entender. Sobre a Somália estamos conversados, como se usa dizer coloquialmente.
Na zona mais rica, a República Democrática do Congo, os países vizinhos: Ruanda, Uganda, designadamente apostam em fomentar a instabilidade apossando-se através de grupos rebeldes que apoiam, de riquezas incalculáveis. Riquezas que, sublinhe-se, não ficam no Continente, servindo de alimento a grandes empresas estranhas à região. Angola teve já de intervir para defender as suas fronteiras e procurar manter a unidade do país que se se cindir irá desencadear nova guerra de violência incalculável.
Em tudo isto, e por tudo isto, seria de esperar que África se colocasse sob um chapéu da União Africana, com uma força própria de implementação de paz, admitida pela Carta das Nações Unidas. Não pode existir política de manutenção de paz se primeiro esta não existir. Tal porém não foi até agora possível pois todos e cada um dos Estados recusam delegar um pouco da sua soberania para o conjunto – e até agora com razão. De facto se no Continente não se repetirem, intensificarem mesmo fóruns como o que decorre em Luanda, a construção e solidificação de uma cultura de Paz não irá abrir caminho.
O tempo não é um aliado da construção dessa cultura. Por entre os conflitos existentes, sejam internos, sejam transfronteiriços, deambulam centenas de milhares de refugiados, presas fáceis de forças condenáveis. Tive oportunidade de ver como refugiados do Cambodja, da Somália ou do Sudão eram integrados, por vezes à força, em hostes guerrilheiras, usados como carne para canhão nas disputas de interesses que não eram os seus. No meu estúdio pontifica uma foto tirada na fronteira do deserto do Ougaden onde refugiados chegavam deixando para trás sandálias, roupas, tudo o que podia pesar. Em Aranyaprathet, na fronteira da Tailândia com o Cambodja, conheci e convivi com uma família, o sustento dessa família, filho único, fora cooptado pela guerrilha anti-vietnamita e levado para perder ambas as pernas numa mina.
Os filhos nasceram num campo de refugiados, saíram comigo, à minha responsabilidade, desse campo pela primeira vez, para verem encantados um búfalo de água, comum animal de trabalho naquela zona. É necessário compreender esta realidade.
Humanizar é importante como importante é centrar a defesa das soberanias no controlo nacional e regional dos recursos naturais cobiçados. A Conferência de Luanda é um passo. Angola, pelo seu passado, pelo seu presente, pela forma como geriu a reconciliação e pela gestão que fez dos conflitos vizinhos é um dos poucos países com condições para liderar o processo conducente a uma cultura de Paz em África em colaboração com os seus vizinhos mais próximos da SADC, a zona mais estável e consistente.