terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Entre a decência e a decadência


Benjamim Formigo|
5 de Fevereiro, 2013

A visão do Mundo sem a Europa é impensável na exacta medida em que é impensável olhar para esse mesmo Mundo sem a África, as Américas e por aí fora.
A visão do Mundo sem a Europa é impensável na exacta medida em que é impensável olhar para esse mesmo Mundo sem a África, as Américas e por aí fora. Mas começa a ser uma realidade virtual preocupante. Virtual porque a Europa não foi apagada do mapa. Está lá muito bem desenhadinha mas ao contrário do que sucedia quando todos os países lá estavam muito bem definidos, agora há um borrão disforme onde se lê União Europeia. Ora a verdade é que nem é união, porque a união que existe é imposta de dentro, nem é europeia porque quem manda são os alemães e uns senhores que vivem em Bruxelas e ninguém elegeu, apesar de se afirmarem como arautos da democracia.
Se o resto do Mundo soubesse aproveitar os quadros desempregados da Europa pelo menos da decadência europeia não viria mal ao mundo, como se costuma dizer. O problema é que entre esses quadros impera muita mediocridade, safam-se os que pisam tudo e todos por um prato de lentilhas e circulam os pseudo empresários que investem em países não europeus com o dinheiro dos outros. A decência desapareceu. A decência e a vergonha esfumam-se na decadência moral que surge do Velho Continente entregue aos neoliberais. A Europa exporta massa cinzenta, é um facto, mas pelo meio pulula o oportunismo. A ideia de uma Europa unida só seria viável com base em princípios de decência e boa fé que se tornaram escassos na zona do Poder.
O interesse destas considerações sobre o que se passa a milhares de quilómetros da África Austral reside meramente no facto de os Governos europeus terem definido um caminho perigoso de contornos ainda não definidos e excessivamente dependente de variáveis cujo controlo não está nas mãos dos políticos. A Europa tem uma moeda que se tornou desproporcionalmente forte se tivermos em conta as fragilidades da economia europeia. Na Europa da decadência o índice de desemprego ultrapassa os 10,7 por cento e nos 17 países da eurozona está acima dos 11,8 por cento, ou seja mais de 18,8 milhões de pessoas perderam os empregos ou não conseguem encontrar um trabalho. Nalguns países da zona euro o desemprego ultrapassa 26 por cento, caso da Espanha, a quarta economia europeia. Ou seja o número de desempregados na União Europeia ultrapassa a população de muitos dos seus Estados membros e os custos directos desta situação são superiores ao PIB de vários países; não é possível, ainda, avaliar a totalidade desse custo – só do ponto de vista financeiro – porque deliberadamente se dispersam as perdas de receitas dos Estados. Os custos sociais, esses, parecem ser menosprezados pelo poder, seja político ou financeiro.
Bruxelas, ou seja a Comissão Europeia, o Conselho Europeu, foi delapidando a periferia da sua pouca riqueza, transformando países em zonas prestadoras de serviços, extinguiram-se milhões de postos de trabalho que nunca foi possível, nem será, repor. Todavia a riqueza que correu para o centro da Europa inicialmente ainda deixou pelo caminho umas migalhas que foram sendo aproveitadas nas zonas menos favorecidas, muitas vezes por uma clique que se formou em torno do poder que foi surgindo das cinzas da democracia. O centro de gravidade financeiro não passou por um processo pendular, escorregou lenta, deliberada e decididamente para a Alemanha, e o primeiro sinal de alarme deveria ter surgido quando Berlim substituiu Bona, depois da Comunidade Europeia ter pago a unificação alemã. Simplesmente já a própria Alemanha tem problemas com a sua indústria pois os melhores clientes, os parceiros europeus, têm menos compradores dos topos de gama germânicos.
O processo industrial descentralizou-se, continuando a enriquecer os mesmos do Primeiro Mundo sem contudo enriquecer qualitativamente as populações do Terceiro Mundo. O circulo fecha-se quando no Primeiro Mundo se deixa de comprar ao Terceiro. A procura diminui e com essa diminuição vem o ataque às economias emergentes: a procura de matéria-prima desce, até onde?
Claro que os Estados Unidos têm uma quota parte, e bem importante, de responsabilidade neste processo de decência e decadência. Mas os EUA dispõem de uma verdadeira União, são uma Nação unida em torno de uma Constituição. Não existe comparação com a decadência europeia e a incapacidade europeia de ter a decência de arrumar a casa, a decência e a coragem. A Europa já lançou convulsões suficientes quando se digladiou em vários Continentes arrastando para os seus conflitos outros povos. Nas últimas semanas fiz várias vezes referência à importância crescente das organizações regionais. Também na economia e nas finanças elas poderiam ter um papel crescente para fazer face ao não se sabe bem o quê que pode vir por aí. Na passada podem analisar as asneiras da chamada construção europeia para as evitar. Numa tentativa humorística dir-se-ia que a melhor profissão para o futuro é a advocacia, pois será necessário processar os economistas e os analistas financeiros pelo conjunto monumental de erros colossais e asneiras abismais que têm vindo a fazer.