segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Antiterrorismo cauteloso


Benjamim Formigo|
21 de Janeiro, 2013

A Argélia a semana passada teve de enfrentar uma ameaça que poucos países ainda tiveram no seu território: instalações petrolíferas e de extracção de gás, facilmente inflamáveis, ocupadas por um grupo ligado à Al Qaeda ameaçando quase 700 reféns.
A Argélia a semana passada teve de enfrentar uma ameaça que poucos países ainda tiveram no seu território: instalações petrolíferas e de extracção de gás, facilmente inflamáveis, ocupadas por um grupo ligado à Al Qaeda ameaçando quase 700 reféns. Não faltaram os avisos e as críticas veladas, como seria de esperar.
Sábado ao final do dia, aparentemente, tudo teria acabado com vítimas do lado dos reféns e os sequestradores mortos. Sábado anunciava-se a morte de onze reféns, assassinados pelos sequestradores ou dano colateral da acção militar argelina (não era claro se seriam mais onze a acrescentar à dezena que morreu no ataque de quinta-feira).
Dos Estados Unidos como da Europa e do Japão havia desde o início avisos velados, “respeito pelos direitos humanos”, “contenção” e até “solução pacífica”. Nenhum país teve até agora de lidar com uma situação deste tipo. A tomada de reféns quase se vulgarizou mas em nenhuma circunstância anterior se reuniram no mesmo evento tantos factores de risco. Acresce, verdade seja dita, que nem todos os Estados dispõem de unidades especiais preparadas para lidar com uma situação deste tipo caso sucedesse, embora seja presumível a existência de planos de contingência.
O Exército argelino foi chamado a intervir e a primeira acção terá sido um ataque de helicópteros contra uma coluna que se preparava para levar umas dezenas de reféns para outro local. Cerca de dez reféns foram mortos no ataque. Seguiu-se, como é público, um cerco e um assalto às instalações. Mais alguns civis foram mortos neste assalto. Os países com interesses no sequestro, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Noruega, Japão e Filipinas, além obviamente da Argélia, exprimiram críticas veladas ao que consideram ser uma acção excessivamente violenta, como haviam anteriormente expresso advertências ao tipo de reacção.
A Argélia não tinha outra solução senão agir e agir decisivamente enviando uma mensagem bem clara para que outro grupo não tente uma aventura semelhante. Agiu e fez questão em actuar só, recusando a colaboração de outros países, designadamente da Grã-Bretanha, como recusou dar conhecimento prévio a qualquer dos países com reféns envolvidos. A mensagem tinha de ser inequívoca. Argel recusou as pressões internacionais para se envolver no Mali, antes e depois da intervenção francesa. Tem recusado colaborar na luta conjunta contra o franchising da Al Qaeda no Maghreb limitando-se a manter os extremistas islâmicos no deserto a centenas de quilómetros da capital e da costa. O argumento argelino remonta aos anos de 1990 quando teve de enfrentar só o extremismo islâmico no seu território enquanto os outros países assobiavam olhando para o lado.
Acontece que a Argélia tem o Exército mais poderoso no Norte de África e da região, dispõe de um sistema de informação sobre os militantes islâmicos que será talvez o mais completo, depois de Israel. Acontece também que de cada vez que lhe é pedida cooperação contra os militantes islâmicos a moeda de troca proposta por Argel é sempre recusada. Não se pode ter sol na eira e chuva no nabal, as relações internacionais têm de ter dois sentidos. Porém não tem sido esse o entendimento dos países ocidentais.
Uma outra questão é levantada por este assalto ao campo de In Amenas: a guerra na Líbia para a qual a Argélia nem foi ouvida nem achada. As armas entregues pelos países terceiros que se envolveram no conflito foram distribuídas sem controlo, e têm surgido em vários pontos do Médio Oriente.
Hoje sabe-se que muitos beduínos armados, bem armados, se retiraram da Líbia para o Mali. Outros vaguearam pelo deserto líbio e como eles outros grupos, designadamente militantes islâmicos expulsos da Argélia. Estes últimos vieram a constituir a liderança da Al Qaeda no Maghreb, que Argel tem combatido no seu território. Desta vez, as notícias dão conta que um grupo desses militantes, que transitam livremente na Líbia da “primavera árabe”, atravessou a fronteira e tomou In Amenas. Com a “primavera árabe” o génio saiu da lâmpada e ninguém tem a menor noção de como poderá ser contido, já nem se fala em fazê-lo regressar à lâmpada de onde foi libertado.