22 de Outubro, 2012
Dentro de cerca de três semanas os Estados Unidos terão o
seu Presidente eleito, Obama ou Romney, só mesmo os americanos irão
notar a diferença.
Nem Obama nem Romney têm verdadeiramente uma solução para a economia americana. Ambos apresentam medidas cosméticas para reduzir o desemprego, ter um crescimento positivo (mesmo baixo) e reduzir o défice.
Na Europa a situação ainda se torna mais complicada. Gostemos ou não hoje, ainda são os americanos e os europeus quem, por decisão ou omissão, influenciam os acontecimentos globais. Assim, se alguém tem ilusões de que o último conselho europeu, introduzindo mecanismos de fiscalização bancária, prevendo um orçamento comunitário através de um mecanismo fiscal sobre as transacções financeiras, permitindo o financiamento directo pelo BCE, veio resolver a crise, desengane-se.
Londres já disse que não a tudo, o Luxemburgo fica de fora e apenas os restantes países da zona euro parecem dispostos a aceitar. Nas ruas, cresce a contestação. Mais: nas ruas a contestação ameaça tornar-se horizontal e dentro de uma semana veremos o sucesso da contestação ibérica, e se esta se estendeu realmente ao nível europeu, como os sindicatos pretendem.
O exercício de governar, mesmo eleito, começa a tornar-se complicado. No Médio Oriente, a situação não está para melhorar. A notícia de sábado de que o Irão estaria na disposição de entrar em negociações sobre o seu programa nuclear, a confirmar-se, pode mesmo ser a única boa notícia deste último trimestre de 2012. Teerão pode, de facto, tirar vantagens políticas, diplomáticas e económicas num processo de conversações se do outro lado da mesa houver abertura à coexistência com um regime islâmico, mesmo que fundamentalista. As conversações, porém, nem serão simples nem rápidas, e estarão severamente condicionadas pelas exigências dos dois lados, sendo que um deles será dominado pelos interesses de Israel e dos Estados Unidos.
Dias antes das notícias da disponibilidade negocial iraniana, veiculadas pela imprensa americana – e não desmentidas pelo Irão – acentuava-se a crise fronteiriça entre a Síria e a Turquia. Desde o início de Outubro que as escaramuças se multiplicam ao longo da fronteira. A semana que passou trouxe a lume o incremento da participação de Washington, para já através da partilha de informação e o debate de bastidores entre americanos e turcos sobre a eventualidade de a crise fronteiriça escalar, eventualmente, ao nível do conflito regional. O debate irá continuar durante esta semana, com os militares americanos preparando planos de contingência, segundo o “Washington Post”, e envolverá responsáveis da OTAN, organização de que a Turquia faz parte. A Administração Obama tem estado a ser pressionada pelo campo republicano, e alguns dos seus amigos árabes, a uma intervenção na Síria. Washington tem reagido de forma dúbia, apoiando os rebeldes sírios e fornecendo informações à Turquia, ao mesmo tempo que apela ao diálogo.
Ancara recebeu de Washington o apoio político que pretendia, com o reconhecimento pelos americanos do direito à autodefesa, previsto na Carta das Nações Unidas. Todavia, esse reconhecimento não será possível no Conselho de Segurança, onde Rússia e China farão uso do seu direito de veto. Não mais uma intervenção adaptada da Líbia, com a França e a Grã-Bretanha em apoio da Turquia, na imposição de uma zona de interdição aérea, enquanto os restantes países da OTAN se manteriam à margem. Hollande não é Sarkozy e a França manter-se-á, provavelmente, fora, o que dificultaria a posição de David Cameron.
Como se não bastasse a situação em si mesma, os turcos, com base em informações americanas, interceptaram e fizeram aterrar um avião comercial sírio oriundo de Moscovo. A bordo, segundo foi revelado, estavam componentes electrónicos para o sistema de mísseis terra-ar sírio, de fabrico russo. A confusão arrastou inevitavelmente Moscovo para o terreno. Se o ambiente entre a Rússia e os EUA não era o melhor, apesar das declarações “off the record” de Obama a Medvedev, este incidente em nada contribui para as melhorar. Por arrastamento, as relações euro-russas também não são as melhores. Ao abrirem a Caixa de Pandora das “primaveras árabes”, americanos e europeus deviam esperar a actual sucessão de acontecimentos, mas se acreditarmos que as grandes diplomacias cometeram erros de avaliação (o que não seria a primeira vez), temos perante os nossos olhos um descontentamento crescente que não se pode comprar, até porque não há dinheiro.
O descontentamento no Norte de África e Médio Oriente está para ficar, ao mesmo tempo que nos EUA o emprego tem de surgir, e sucederá mais facilmente que na Europa, enquanto no Velho Continente o descontentamento tende a crescer, sobretudo num período como o Inverno, em que as contas de energia sobem e não há dinheiro nem empregos. As consequências vão muito além dos dois continentes e resumem-se brevemente.
Antigamente, dizia-se que quando os Estados Unidos se constipavam o Mundo contraia uma pneumonia. Sendo a Europa uma economia tão poderosa, mesmo em crise, uma constipação dos dois lados do Atlântico tem consequências que estamos longe de conhecer.