27 de Setembro, 2012
A suposta descoberta de que a produção de combustíveis a
partir de produtos alimentares era financeiramente favorável e
ecologicamente sustentável está a provar ser uma miragem, mas uma
miragem desastrosa do ponto de vista financeiro, ecológico e sobretudo
humano.
Rússia, Ucrânia e Cazaquistão em conjunto produzem 20 por cento dos cereais consumidos no Mundo. Do outro lado do Atlântico os Estados Unidos mais do que duplicam esta produção. Este ano porém a produção de cereais em geral e em especial de milho e soja caiu em todo o Mundo em virtude da prolongada seca.
Em termos globais os números sobre a quebra de produção não são claros, os diferentes países produtores, e em especial os exportadores, não revelam números exactos e as Nações Unidas nos últimos seis a sete anos deixaram de ser uma fonte disponível. Sabe-se porém que União Europeia, Rússia, Europa Central, e Estados Unidos sofreram a maior quebra de sempre.
Nos EUA a produção teria caído mais de seis por cento afectando pela negativa o volume de exportações com consequências nos preços que já registaram subidas entre 35 e 40 por cento e em 2013 a situação poderá piorar.
As metas estabelecidas pelos grandes produtores para o biodiesel são um dos elementos de maior impacto negativo nos cereais disponíveis para a alimentação humana mas também animal. Cerca de 40 por cento da produção de milho e soja dos EUA é entregue para o fabrico de um combustível que fracassou totalmente no seu impacto positivo no ambiente. Outros grandes produtores têm optado por descentralizar a sua produção de cereais destinados a combustível para terceiros países. Os contratos com estes países subcontratados são inequívocos: a produção cerealífera destina-se na quase totalidade à produção de combustível “verde” para os contratantes enquanto estes conseguem assim salvaguardar algumas reservas.
Nos EUA fala-se com insistência, quer a nível da Administração, quer dos grandes comerciantes de cereais, como a Cargill, em reduzir drasticamente as quotas afectas ao etanol. Segundo analistas da Reuters a produção americana poderá ter caído 14 por cento abaixo do estimado e a Administração Obama reconhece que um terço dos estados produtores sofrem a maior seca dos últimos 25 anos. Na Europa a situação não é diferente. François Hollande, Presidente francês, convocou uma reunião de emergência dos ministros da Agricultura do G-20 para discutir precisamente a redução das quotas de cereais a entregar à voracidade dos depósitos de combustível. Boas notícias para os produtores de petróleo se não tivessem de importar uma boa parte dos cereais que consomem e que constituem a base da alimentação das suas populações.
No curto prazo, com a dificuldade de alimentar o gado, o mercado da carne poderá sentir uma quebra de preços. O gado terá de ser abatido e abundará no mercado empurrando os preços para baixo a curto prazo, contudo uma onda ascendente seguir-se-á dada a falta de gado a partir de 2013. A ideia de Francois Hollande, e que está longe de reunir consenso, é constituir de futuro uma reserva cerealífera que permita colmatar as faltas de produção e garantir não só o abastecimento como a estabilidade de preços, evitando que dezenas de milhões de pessoas tenham fome, como sucedeu em 2008. Por outro lado a reavaliação do tal “combustível verde” impõe-se não só porque não trouxe os benefícios esperados como porque para o desenvolvimento agrícola continuar tem sido depredada mais área florestal.
Uma oportunidade porém para os países com potencialidades agro-alimentares não exploradas ou sub-exploradas: o investimento no que pode ser uma nova área de negócio e simultaneamente de soberania. Ou mais uma oportunidade perdida a favor da economia dos mesmos – os grandes.