14 de Agosto, 2012
Às primeira horas da manhã de ontem o candidato republicano
Mitt Romney, a bordo do couraçado USS Wisconsin, revelou o nome do seu
companheiro na corrida à Casa Branca: Paul Ryan.
O anúncio, com considerável antecedência em relação à convenção republicana, foi feito em Norfolk, Virgínia, onde o vetusto navio da 2ª Guerra Mundial se encontra desde que foi afastado do activo. A escolha do Wisconsin não foi casual, Paul Ryan é o representante do Estado de Wisconsin no Congresso. Como nada é casual Romney optou por fazer o anúncio no primeiro dia de uma digressão por alguns Estados do Sul que habitualmente não têm uma opção leal (os swing states), mas um considerável número de votos no Colégio Eleitoral que após o sufrágio de 6 de Novembro decide quem é o próximo Presidente dos Estados Unidos.
O anúncio do “running mate” do candidato que desafia o Presidente é sempre um dos pontos altos da campanha desde que John F. Kennedy, em 1960, conseguiu conquistar o Texas e muitos Estados do Sul com a escolha cirúrgica de Lyndon B. Johnson.
Mas, vários estudos e os resultados eleitorais mostram que JFK foi também o último candidato a beneficiar do “ticket”. George H. Bush (pai), em 1988, em New Orleans, mesmo em cima da convenção republicana, a bordo de um barco do Mississipi, anunciou Dan Quayle como companheiro em ambiente de grande festa. A verdade é que ganhou as eleições a Michael Dukakis apesar do seu “running mate” que não auxiliou em nada a sua campanha e apesar de Dukakis ter ao lado Lloyd Bentson, um texano com pesado lastro político, companheiro de JFK. Eventualmente Bill Clinton pode ter conseguido uma vantagem junto do eleitorado liberal com a escolha de Al Gore, mas não foi Gore quem lhe trouxe a margem necessária para a vitória.
Para Mitt Romney a inclusão de Paul Ryan vem trazer à campanha uma componente intelectual considerável do ponto de vista conservador. Não sendo muito usual o anúncio a mais de duas semanas da convenção republicana, que se realiza entre os próximos dias 27 e 30, o candidato republicano e a sua campanha procuram, deste modo, contrariar a queda consistente nas sondagens que dão a Barack Obama uma vantagem de nove pontos a nível nacional e também superioridade em muitos dos grandes Estados, os que têm mais lugares no Colégio Eleitoral. A incursão republicana pelo Sul, a partir da Virgínia e com términos na Florida (um dos grandes Estados), procura contrariar a campanha democrata que tem apresentado, com sucesso, Mitt Romney como um milionário afastado da realidade da classe média e dos trabalhadores, fazendo esquecer o trabalho de Romney como governador de Massachusetts.
Verdade seja dita que Romney candidato presidencial tem tido muito pouco mesmo a ver com a sua atitude social em Boston.
Paul Ryan tem sido um severo crítico de Barack Obama e da sua política económica e fiscal e é contra os impostos que o Presidente pretende lançar sobre os que têm maiores rendimentos com uma atitude de redução de despesa que, para não aumentar os impostos, tem de ser drástica, o que, a exemplo do que sucede na Europa, vai contrariar o fraco crescimento que os EUA têm conhecido desde que as suas instituições financeiras estiveram na origem da crise.
Se Obama tem sido moderadamente um regulador que desagrada aos neoliberais, Paul Ryan é o neoliberalismo.
O conservadorismo fiscal do novel companheiro de Romney não é necessariamente negativo. Pode garantir-lhe os sectores mais conservadores e as bases do partido, mas não lhe traz muitos benefícios, como no passado os companheiros de caminho dos candidatos não trouxeram. Ao auxiliar Romney à direita é muito pouco claro que os republicanos consigam segurar o centro e os “swing voters” que no final são os decisores do resultado.
Se os republicanos pensaram, com este anúncio, tirar proveito até à convenção, a vantagem não é evidente. A campanha democrata tem mais tempo para reagir do que se o anúncio tivesse sido feito, como habitualmente, mais próximo da convenção.
Uma rentrée política para Romney é indispensável quando continua a perder terreno face ao Presidente. Foi esse o objectivo do anúncio e a provável convicção que é possível convencer o eleitorado que o défice vai ser reduzido sem o aumento de impostos. A última vez que os americanos ouviram essa tese foi em 1988 pela voz de George H. Bush (pai), numa frase que o acompanhou para lá da sua Presidência: “read my lips, no more taxes” (“leiam os meus lábios, não há mais impostos”). Poucos meses depois Bush (pai) na Casa Branca subia os impostos para tentar, em vão, controlar o défice deixado por Ronald Reagan.
Romney sabe que após a convenção que apoteoticamente o vai nomear candidato oficial republicano tem uma subida nas intenções de voto. Mas também sabe que é uma subida ilusória. Para já, porque dificilmente reduz os nove pontos de vantagem, depois porque na semana seguinte os democratas reúnem-se em Charlotte, Carolina do Norte, para aclamarem Barack Obama.
O candidato republicano necessita de um empurrão extra, de reduzir a vantagem do rival antes da convenção. Muito dificilmente o conseguia através de um vice-presidente putativo e menos ainda de um conservador fiscal e orçamental com os EUA em crise económica. Não porque Obama possa estar a gerir bem a crise, mas porque a está a gerir.
Os democratas procuram frustrar uma rentrée do rival desde o início. Se os republicanos escolheram a Florida, com um importante eleitorado conservador, entre o qual muitos reformados que procuram a estabilidade fiscal e monetária, os democratas reunindo a convenção da Carolina do Norte regressam ao Sul pela primeira vez desde a convenção de 1988 em Atlanta, Geórgia.
A menos que Barack Obama perca completamente o controlo da campanha ou Paul Ryan consiga malabaristicamente dar a Romney o impulso que necessita, Novembro pode não trazer surpresas, apesar de em política, em especial na norte-americana, não haver impossíveis.