quarta-feira, 6 de junho de 2012

O diálogo de surdos no conflito da Síria


Benjamim Formigo |
6 de Junho, 2012

No final da semana, na sua primeira visita ao estrangeiro desde a tomada de posse, o Presidente russo Vladimir Putin foi inabalável quanto à posição de Moscovo relativamente à Síria: só existe uma saída e é política, a guerra civil não é uma opção. O Presidente russo detém de facto a chave para o conflito na Síria cujas consequências se estão a tornar inaceitáveis.
No final da semana, na sua primeira visita ao estrangeiro desde a tomada de posse, o Presidente russo Vladimir Putin foi inabalável quanto à posição de Moscovo relativamente à Síria: só existe uma saída e é política, a guerra civil não é uma opção. O Presidente russo detém de facto a chave para o conflito na Síria cujas consequências se estão a tornar inaceitáveis.
A repetição da proeza levada a cabo na Líbia através de um aproveitamento abusivo da Resolução 1973 do Conselho de Segurança não é possível. A aventura franco-britânica e norte-americana teve consequências desastrosas na confiança entre Estados e logicamente no funcionamento do Conselho de Segurança. Moscovo vetará qualquer proposta intervencionista e será seguida por Pequim.
Vladimir Putin foi muito claro nos seus encontros da passada semana com a chanceler alemã Ângela Merkel e o Presidente francês François Hollande. Também foi claro ao salientar que o seu Governo não apoia qualquer das partes em conflito, mas que cabe aos sírios definirem o seu próprio destino à mesa de conversações.  Um recado para a Casa Branca e o Eliseu que têm apadrinhado encontros do chamado “Grupo de Amigos da Síria”, com responsabilidades na situação.
Verdade é que se existe um excesso de força letal por parte do Governo também os grupos da oposição armada têm culpas; verdade é que se Kofi Annan tem um interlocutor só do lado do poder tem múltiplos na oposição que não se sabe quem representa o quê exactamente; verdade é que face ao bombardeamento de Houla, que causou a morte a mais de uma centena de civis, se torna urgente agir para evitar que o conflito escale e se torne incontrolável.
Porém a urgência de acção esbarra precisamente na falta de confiança que a aventura líbia instalou no Conselho de Segurança. A intervenção armada legítima carece de cobertura do Conselho em defesa de civis, da invocação de ameaça de desestabilização por um país vizinho ou da sua autodefesa.
No Conselho de Segurança o veto russo e chinês não deixam passar qualquer proposta nesse sentido; a invocação de ameaça ao seu território ou autodefesa só poderia partir da Turquia e Ankara teria de ponderar muito bem essa acção se a levasse a cabo.
Assim a urgência de pôr fim aos confrontos está severamente limitada e os vários países que se têm envolvido perdem tempo precioso para apoiarem os esforços de Annan. Pode-se argumentar que o plano do antigo Secretário-Geral da ONU não é completo, ou não é o melhor, mas o facto é que está aceite e a diplomacia inteligente seria negociar e levar ao seu cumprimento por todas as partes. Pior do que não dar apoio ao que existe são as dificuldades que os grupos de oposição colocam à diplomacia, designadamente a russa. O Kremlin, e Putin disse-o em Paris, ao lado de Hollande, não apoia o Governo sírio mas quer uma solução política. Em Berlim ele e a senhora Merkel sublinharam também este caminho.  O recém empossado Presidente francês, François Hollande, dias antes admitira uma intervenção militar “com apoio do Conselho de Segurança” da ONU. A afirmação não podia ser mais inútil pois Hollande não ignora que qualquer proposta será vetada.  O que na verdade significa que o Eliseu apenas se pretendeu manter junto dos aliados sabendo que nunca teria de ficar com o eventual ónus da recusa.
Resta Washington.
Obama não conseguiu no G8 o encontro com Putin, que se fez representar pelo PM Dimitri Medvedev. Terá a sua oportunidade este mês na reunião do G 20, no México, se Putin comparecer. O Presidente americano necessita de desanuviar o ambiente com Moscovo onde pontifica um homem da Guerra Fria que pretende colocar a Rússia no mapa político com a proeminência que tinha.
Na Síria a situação é insustentável. A oposição está dividida e não se vêm aproximações. Dirigentes do auto proclamado Comité Nacional de Coordenação para a Mudança Democrática estiveram em Moscovo em conversações com responsáveis russos, porém o chamado Conselho Nacional Sírio recusa falar com os russos.  Ninguém sabe porém o que representam exactamente estas comissões de cúpula. A violência caminha para uma guerra civil se o Exército se desmoronar ou as forças estrangeiras continuarem o financiamento de armas.
Para os russos uma solução aceitável passa por garantirem a manutenção dos seus interesses estratégicos na Síria. Se estivéssemos nos tempos da Guerra Fria não seria difícil acreditar que os confrontos iriam continuar até esses interesses estarem desalojados. Por muito que se possa não gostar, tal como na Guerra Fria, está na altura de cada um torcer o braço ao seu “aliado” e “forçá-lo” a entrar no jogo. Se não o fizer terá na consciência as mortes que se sucedem naquele país.