terça-feira, 8 de maio de 2012

Protestos eleitorais na Europa


Benjamim Formigo |
8 de Maio, 2012

Domingo 6 de Março de 2012 foi o dia em que os europeus tiveram a possibilidade de se exprimir eleitoralmente após o regime de austeridade que tem sufocado as economias europeias.
Domingo 6 de Março de 2012 foi o dia em que os europeus tiveram a possibilidade de se exprimir eleitoralmente após o regime de austeridade que tem sufocado as economias europeias.
O resultado não foi inesperado. França e Grécia votaram contra as políticas dominantes; na Alemanha em Schleswig-Holstein o protesto foi claro com a derrota, embora marginal, da coligação que apoia a Sr.ª Merkel e uma vitória do SPD seguidos dos Verdes e do partido da minoria dinamarquesa. Na Grécia as forças tradicionais que há 40 anos alternavam no poder dificilmente conseguirão uma coligação estável com a transferência de votos para a esquerda e direita radicais.
Se a eleição de François Hollande não foi boa notícia para a chanceler alemã, a derrota em Schleswig-Holstein pode muito bem ser apenas o prelúdio de uma outra derrota bem mais pesada no Norte do Reno – Vestefália com 18 milhões de habitantes e as sondagens são preocupantes.
Na segunda-feira na Europa, EUA e Japão havia entre os analistas habituais a convicção de que os europeus tinham exprimido um voto de protesto contra a austeridade que os sufoca e ameaça a economia global.
A classe média europeia mais esclarecida não aguenta mais rigor, revolta-se contra a espoliação das pensões para que contribuiu, não aceita mais impostos. As eleições de domingo foram um aviso inequívoco à direita neoliberal. Mas também uma advertência muito séria à União Europeia: o resultado eleitoral na Grécia traduz uma fragmentação que torna o país virtualmente ingovernável e qualquer insistência em mais pacotes de austeridade quase o colocam à beira de uma guerra civil ou motim generalizado.
François Hollande, o novo Presidente eleito, assumiu compromissos que transcendem o eleitorado francês. É sabido que Hollande é apenas o Presidente possível, ou pelo menos assim é visto, mas apostou forte em evitar que a França seja arrastada para o buraco negro da austeridade lançando uma questão que outros dirigentes europeus antes dele lançaram sem sucesso: um pacto de crescimento no pacto fiscal.
Paris não só ameaça abandonar o Norte como faz coro com o Sul. A chanceler alemã perdeu o seu aliado no dogma da austeridade. A Europa, se Hollande for consequente e os seus potenciais aliados tiverem coragem, terá de inverter a política de austeridade sufocante e encontrar uma forma de inserir no chamado pacto fiscal medidas eficientes de crescimento que travem o desemprego, as falências de empresas e famílias e possam relançar o consumo.
Uma outra questão importante é que enquanto em França a vitória de Hollande trava também a xenofobia que fez crescer a Frente Nacional, na Grécia o voto de protesto poderá ter levado forças xenófobas ao Parlamento. Só por si a relevância deste pacto poderá não ser grande se finalmente a Comissão e o FMI compreenderem para onde estão a empurrar a Europa.
No Japão a vitória de Hollande e os resultados grego e alemão são vistos como um sinal de que a Europa terá de afastar-se da austeridade pura e dura em direcção a um complemento que propicie o crescimento. Nos EUA espera-se o mesmo. O presidente do BCE não esconde a simpatia por essas medidas.
O momento poderá ter chegado, ou estar próximo, e que o poder financeiro que controla a direita política europeia terá de compreender que a especulação tem limites. Se assim não suceder o próprio poder político, tal como nos EUA, terá de repor controlos sobre movimentos de capitais e as off shore não poderão ficar de fora. Os excessos do ultraliberalismo estão a globalizar uma crise e arriscam mesmo violentos confrontos na Europa.
Se Hollande tiver aliados e fizer flectir a actual situação os múltiplos excessos que as finanças europeias têm conhecido, dos paraísos fiscais às deslocalizações selvagens de empresas, terão de ser corrigidos.
Pela frente está ainda um longo e difícil caminho com a Alemanha a fazer saber na segunda-feira ao final da manhã que não iria renegociar o pacto financeiro assinado por 25 países. Uma declaração de um porta-voz da Sr.ª Merkel, esquecendo contudo que os parlamentos de 22 países não ratificaram ainda o pacto que sem esse aval será nulo.
Um braço de força desenha-se.