2 de Abril, 2012
A notícia está no facto da subida se dever a um conjunto de actos terroristas, à gestão presidencial dessa crise e à utilização dos órgãos de comunicação social.
França foi palco de um conjunto de atentados terroristas, o ultimo dos quais, ignominioso envolvendo crianças. O Governo fez apenas a obrigação e fê-lo eficientemente. Demasiado até, embora não seja claro se o terrorista não podia ter sido capturado, interrogado e julgado. À sua neutralização seguiu-se uma considerável operação de captura e neutralização de um grupo que alegadamente tinha ligações com o homem que aterrorizou a França.
Até aqui nada aparentemente errado a não ser o facto de nas operações estarem câmaras de TV que não surgiram acidentalmente. Nada de errado a não ser o facto de ninguém questionar o elementar: este tipo de rede não costuma colocar anúncios nos jornais, nem ser descuidada, portanto ou houve uma imensa eficiência da Policia e dos serviços secretos, que em menos de 48 horas encontraram e desmantelaram a rede, ou sabiam dela e se sabiam não puderam agir em tempo útil. Se assim foi isso devia ser assumido publicamente. As autoridades terem informações, mas não saberem onde o ataque vai ocorrer, acontece muitas vezes, e por isso não o podem impedir.
O terrorismo é um jogo em que o terrorista tem, em princípio, a vantagem e as autoridades são apenas reactivas.O candidato Sarkozy soube aproveitar bem a ocasião. Não deixou a comunicação a qualquer dos seus ministros e apareceu publicamente a dar conta das operações e do evoluir da situação.
Sarkosy acentuou o discurso contra os imigrantes em França, apelando a um eleitorado normalmente fiel aos Le Pen, mas também a um certo chauvinismo que os franceses não conseguem vencer e isso para quem já ameaçou pôr em causa o Tratado de Schengen sobre a livre circulação na União Europeia é grave.
O seu rival socialista, François Hollande, que capitalizava no descontentamento com o actual Presidente, tal como Marine Le Pen, caiu, perdeu a vantagem e, com Sarkozy a montar o cavalo na batalha contra o terrorismo e os estrangeiros indesejáveis, vai ter grande dificuldade em recuperar. Strauss-Kahn que o podia ajudar está neutralizado por múltiplos escândalos. Marine Le Pen também desceu com a deslocação da direita para Sarkozy.
Hollande nunca foi um bom candidato, mas o possível para os socialistas. Mesmo com esse “handicap” o socialista liderou as sondagens. Não significa isto que Sarkozy esteja inevitavelmente reeleito, não significa que os franceses aceitem a interferência (que provavelmente não vai haver) de Angela Merkel ao lado do amigo francês. Muito ainda pode mudar.
A questão é a forma como se tornou possível a manipulação dos órgãos de comunicação social.
Obama também teve a sua quota-parte. Numa conversa não muito circunstancial, nem no local certo, com Medvedev, revelou a sua maleabilidade sobre o sistema antimíssil que preocupa os russos, após as eleições. Não notou que os microfones estavam, ou tinham sido ligados. A confidência foi pública com os media a revelarem as palavras do Presidente americano ao seu homologo russo.
Objectivamente o que Obama disse é noticia. Objectivamente também os Presidentes falavam de uma questão geoestratégica sensível. Põe-se pois uma questão ética: revelar assim uma posição presidencial ou perder o mediatismo do directo da TV real e fazer soar a informação bem trabalhada junto de várias fontes políticas e depois fazer uma notícia desenvolvida evitando problemas numa situação geoestratégica importante.
A reflexão tem de ser feitas e não podemos, nem devemos, eximir-nos a essa responsabilidade.