27 de Março, 2012
A situação de instabilidade na Síria começou há um ano com a exigência de reformas politicas e em pano de fundo com a chamada “Primavera árabe” que não foi primavera e de árabe ainda estamos para ver até onde. A atitude franco-britânica, com apoio dos EUA, aproveitando uma Resolução do Conselho de Segurança da ONU para intervir no conflito líbio a pretexto de proteger os civis e de imediato se tornou uma ofensiva aérea contra o Exército regular líbio, antecedido pelo abandono de Mubarak e outras inconsistências politicas levou a acreditar que havia luz verde para a revolta.
Se na Tunísia tudo correu de forma mais ou menos tranquila, o resultado eleitoral foi o que foi. No Egipto a violência instalou-se e continua latente com a Irmandade Muçulmana a puxar os cordéis do poder.
Na Península Arábica, onde os interesses petrolíferos ocidentais são importantes, a Arábia Saudita interveio militarmente onde entendeu, e noutros Estados onde houve mudanças tudo correu sob um controlo apertado.
O caso sírio foi substancialmente diferente. A Síria é uma plataforma estratégica no Médio Oriente. O interesse, primeiro soviético e depois russo, e a protecção de Moscovo a Damasco tem sido uma constante.
Na década de 80 foi Moscovo quem interveio travando Hafez Al-Assad, pai do actual presidente Bashir Al-Assad, num conflito com Israel que poderia ter sido grave. Mas para o Irão, a Síria constitui uma porta para o Mediterrâneo o que os Estados Unidos e os seus aliados, a começar mesmo pelos turcos, pretendem evitar. A Síria é uma questão geoestratégica. Cruzam-se alauitas, cristãos e curdos desde tempos imemoriais. O apoio xiita é recente e aceite pelos alauitas, no poder, por servir interesses comuns, mas opostos a Israel, aos EUA e aos novos senhores na França. A Grã-Bretanha deve ser encarada noutra perspectiva de interesses estratégicos e históricos e mesmo de rivalidade com a França. Mas para a Turquia o regime sírio dando cobertura aos curdos é um incómodo. Mais incómodo ainda que na fronteira turca se concentrem refugiados de origem não controlável pró Ankara, entre os refugiados pode haver uma ameaça curda.
Tudo indica que desde o início tivesse sido privilegiada uma solução política evitando a violência inusitada em que o país vive. Acontece que essa solução iria ou teria de passar por Moscovo. O regresso do Kremlin à cena internacional com o estatuto de potência implicitamente reconhecido não era muito simpático para os EUA e mesmo os europeus, sobretudo de Leste.
O Conselho de Segurança optou por uma Resolução que sabia à partida não ser aceite nem por Moscovo nem por Pequim. O veto quase se diria ter sido provocado.
Os ânimos na Síria exacerbaram-se inevitavelmente e a violência dos dois lados recrudesceu por entre declarações internacionais de condenação do regime.
Os factos importantes porém mantinham-se: em primeiro lugar a oposição politica que se constituiu no auto proclamado “Conselho Nacional Sírio” não era reconhecida pelos militares dissidentes que combatem o Exército regular; o próprio CNS fraccionou-se com um grupo intelectual com peso politico a abandonar aquele organismo alegando que era dominado por pessoas do exílio.
Impedida de facto a mediação russa e depois a chinesa, falhada a missão da Liga Árabe, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, recorreu ao seu antecessor Kofi Annan para desenvolver um plano de acção que pudesse ser aceitável, ou pelo menos negociável e encetasse uma missão negociadora.
As visitas de Annan não pareceram de início muito promissoras. A oposição recusava o diálogo e Bashir Al-Assad também. Discretamente Annan foi trabalhando nas várias capitais, incluindo Moscovo. Esta semana o Conselho de Segurança evitando uma Resolução decidiu adoptar uma Declaração do Presidente (do CS), que obriga à unanimidade.
A declaração, com o peso de ser unânime, exigia de todas as partes comedimento, diálogo e apoia o plano em seis pontos elaborado pelo antigo Secretário-Geral da ONU. Os três mais importantes pontos deste discreto documento de Annan consideram na primeira fase um cessar fogo diário de duas horas, a retirada de tropas das cidades, conversações entre rebeldes e o regime.
Ao mesmo tempo a Declaração da Presidência evitou quaisquer referências a responsáveis pela violência, a condenações e a sanções económicas, sublinhando acima de tudo uma unanimidade para uma resolução politica do conflito.
Parece que, finalmente, um ano depois do início da violência, a Comunidade Internacional descobriu a diplomacia.