18 de Março, 2012
A simples ideia que ela poderá não correr das torneiras ou ser um dia racionada apresenta-se como um absurdo. No resto do Mundo a água potável é um bem ambicionado que não chega a muitos com regularidade, tratada e com uma qualidade satisfatória.
Essa é a água do consumo urbano ou apenas doméstico e representa apenas escassos 30 por cento das necessidades mundiais. Os restantes 70 por cento são consumidos pela agricultura e pecuária.Apenas 61 por cento da população da África subsahariana tem acesso a fontes de água potável. Globalmente representam 40 por cento da população mundial que não dispõe de água tratada.
Analisando os relatórios da ONU sobre o tema constata-se um agravamento da disponibilidade nas regiões rurais menos desenvolvidas - 97 por cento das pessoas não têm acesso a água canalizada recorrendo às águas de superfície não tratada.
Com uma situação destas seria de esperar uma crescente atenção ao acesso a um bem estratégico para a vida, a saúde, o desenvolvimento humano e urbano sustentado, a agricultura e a pecuária.A agricultura representa 70 por cento do consumo mundial de água e está em tendência crescente. O consumo urbano por seu turno tem crescido desmesuradamente e a um ritmo impossível de responder em termos de saneamento básico, e obviamente de fornecimento de água.
Esse bem até há algumas décadas tido por adquirido está em declínio, não só quantitativamente como qualitativamente.O principal motivo para a crise que inexoravelmente se desenha tem sido a incapacidade de se conseguir uma gestão racional e transfronteiriça de um recurso que, ao contrário de outros, deveria ser património da Humanidade.
O dia em que a água e os seus futuros entrarem nos bens transaccionáveis em bolsa poderá não estar longe e será seguramente muito bem justificado pelos especuladores.
A água deixou de ser um recurso renovável. A falta de investimentos na captação e tratamento em certas zonas, como o Médio Oriente ou o Norte da Índia ou no Norte de África, por exemplo, levou à exploração imediata do que deveria ser uma reserva estratégica: os depósitos paleolíticos subterrâneos, ou seja a chamada água fóssil que se encontra relativamente à superfície e cujo tratamento (descontaminação) não exige grande conhecimento tecnológico nem investimentos importantes.
Quanto aos resíduos desse tratamento é uma outra história. A toda esta situação descrita de forma necessariamente muito sumária - ou seja, aumento do crescimento rápido e incontrolado dos centros urbanos e consequente pressão sobre os recursos; crescimento das necessidades alimentares e maior procura de água para fins agrícolas; excessivo uso de água para fins industriais; falta de investimento nos sistemas de saneamento básico e reciclagem de águas residuais para o seu uso noutros fins não humanos -, acresce uma redução da disponibilidade derivada da variação de caudais dos rios, e das modificações climatéricas.
Não estão em debate as causas de um fenómeno de aquecimento global. A primeira questão é perceber que esse fenómeno existe e que tem consequências que já se fazem sentir.
Hoje é pacífico que existe um aquecimento da temperatura global do planeta e da água do mar. Em consequência deste aquecimento é um facto a diminuição do volume da água potável contida nos glaciares, a maior reserva.
Prevê-se e com fundamento científico que esse degelo parcial possa conduzir a uma alteração das temperaturas da água do mar e indução de alterações nas correntes térmicas oceânicas, responsáveis pelo clima.
O ciclo da água estará a alterar-se? Há sérios indícios de que o caminho é esse. Há mesmo estudos científicos sustentados que apontam nesse sentido. Há também um enorme desconhecimento da totalidade de variáveis em jogo. O ciclo da água só foi estabelecido há cerca de meio século por um cientista português exilado em Paris e já está a ser posto em causa pela resposta da Natureza à exploração irracional dos recursos.Paradoxalmente um aumento de chuvas provocado pelo aquecimento e evaporação não se traduz num acréscimo na água disponível para sustentar a vida humana, animal e vegetal em geral, tal como a conhecemos.
Nada garante, bem pelo contrário, que o aumento de chuvas num ambiente atmosférico aquecido, reponha os gelos glaciares e as enormes reservas ali contidas. A alteração da distribuição das chuvas já é real e em última análise poderá influenciar os cursos de água. Abundantes na África Austral, os rios poderão passar a ser alimentados de forma diferente, conduzindo eventualmente a percursos diferentes.
O que se escreve para África é válido para outras regiões do planeta onde as dificuldades já se fazem sentir.
O Ganges, por exemplo, apesar da sua imensidão, está a correr com um caudal inferior e o acesso às suas águas começa a ser mais um factor de instabilidade entre a Índia e o Paquistão, com relações historicamente tensas por disputas fronteiriças.
No Médio Oriente a escassez de água é mais um factor de tensão, muito especialmente quando acabar o recurso não renovável à água fóssil.A nova distribuição de chuvas que poderá ocorrer, ou está já a ocorrer, implica uma resposta flexível e estudada, tanto de agricultores como de Governos, e não se encaixa na actual filosofia de desinvestimento por parte dos Estados. Porém, com ou sem alertas científicos ou da ONU, os Estados não encaram a água como uma prioridade, mas como um dado adquirido e inesgotávelHoje a região austral de África dispõe de importantes recursos hídricos. Não só os rios são imensos como a humidade da cintura tropical e as florestas tropicais ajudam a essa riqueza.
Mas com excessiva frequência se esquece que essa riqueza pode ser mais efémera que o petróleo. Enquanto do último se conhecem as reservas e se calcula o custo de extracção e se desenvolve a tecnologia necessária, não é conhecida nem previsível a evolução futura da água, as reservas e não foi estudada uma resposta alternativa às variações que se poderão aproximar. Eventualmente porque se estima que só suceda depois de 2050... Mas nada garante que não se precipite.
Se tudo continuar como está, se nada for feito, a água será a grande crise que os nossos netos irão enfrentar.
Mais um problema que herdam do desenvolvimento subsequente ao pós guerra, desse admirável mundo novo.