segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Rússia intransigente domina Conselho de Segurança


Benjamim Formigo
6 de Fevereiro, 2012

A Rússia está de volta à cena internacional com uma posição de defesa intransigente do que entende serem os seus interesses e de não abandono dos seus amigos tradicionais, marcando a diferença com os Estados Unidos e a União Europeia.
A Rússia está de volta à cena internacional com uma posição de defesa intransigente do que entende serem os seus interesses e de não abandono dos seus amigos tradicionais, marcando a diferença com os Estados Unidos e a União Europeia. O período de recolhimento pós-soviético parece acabado, precipitado talvez pela forma como a Rússia e a China foram literalmente enganadas com a situação líbia. No caso da Síria os russos desde o início balizaram a eventual aceitação de uma proposta de resolução viável.
A proposta de Resolução sobre a situação na Síria que os EUA queriam ver votada quinta-feira no Conselho de Segurança da ONU assentava no plano da Liga Árabe recusado pela Rússia. Esta proposta teria anunciadamente sido reformulada várias vezes e renegociada antes de ser levada sábado ao Conselho de Segurança. Parece um tanto exótico que a diplomacia não conseguisse evitar o anunciado “niet”. Rússia e China vetaram pela segunda vez em quatro meses propostas sobre a Síria.
Desde que surgiu o primeiro “draft” de resolução os russos deixaram saber que a versão traduzindo o plano da Liga Árabe era inaceitável. O Kremlin sublinhou que só seria aceitável se: primeiro, ­garantisse que não iria haver intervenção estrangeira, em especial militar; segundo, não colocasse a queda de Bashar Al-Assad como condição prévia para uma solução; terceiro, não incluísse sanções económicas, designadamente embargos incluindo de armas. Satisfeitas estas condições a Rússia poderia vir a deixar passar a proposta, no que seria acompanhada pela China.
Os russos anunciaram antecipadamente que o titular dos Estrangeiros Sergueï Lavrov se deslocaria – como vai suceder - no próximo dia 7 a Damasco em representação do Presidente Medvedev para dialogar com o Presidente Al-Assad e preparar o caminho para mediar, inicialmente em Moscovo, uma solução entre as duas partes. Porém a oposição recusou de imediato colocando condições prévias que se supõe terem, como a própria oposição, apoios fora da Síria. O Kremlin antes da votação tinha já assumido internacionalmente a responsabilidade de negociar uma alternativa política que pusesse fim à violência extrema e inaceitável que o país está a viver. Seria de esperar um compromisso que desse uma chance à diplomacia.
Após o veto russo de sábado e dada a conhecida falta de unidade da oposição e a violência dos confrontos a intervenção diplomática russa, embora se mantenha, está dificultada. Com o veto o ministro Lavrov representa para a oposição síria um aliado do inimigo o que complica a já de si problemática intercessão.
Em rigor a proposta nunca deveria ter ido ao Conselho de Segurança sem estar assegurada a sua aprovação. O veto russo era esperado sem um compromisso sério difícil de negociar a contra relógio. Exigia tempo e uma confiança bastante abalada após a interpretação feita pelos EUA, França e Grã-Bretanha da Resolução 1973 sobre a Líbia.
Se existem no cenário internacional situações requerendo uma enorme rapidez de acção esta não era uma delas, apesar da violência que se acentuou nos dias que antecederam o voto. A situação que se foi criando na Síria sugeria uma grande prudência diplomática e muito silêncio. Precisamente o contrário do que sucedeu.
Durante os dias que precederam o voto a Imprensa internacional foi dando conta de compromissos que aparentemente não existiram. Não se pode excluir hoje que todas as notícias sobre cedências e ajustes não tivessem sido mais do que uma manobra de relações públicas. Os media, americanos e europeus, anunciaram uma evolução do “draft” ao encontro da posição ­russa. Assim teriam sido incluídas: a condenação de toda a violência viesse de onde viesse (abrangendo os dois lados do conflito); a defesa de uma solução política e sua condução pelos próprios sírios; o documento seria omisso quanto à partida de Bashar Al-Assad (contrariamente à proposta inicial decalcada do relatório da Liga Árabe); a proposta acentuaria a necessidade de uma resolução pacífica (afastando qualquer possibilidade de intervenção militar), para não deixar ambiguidades como no caso líbio. Em síntese, nos jornais apareceram todos os ingredientes aceitáveis para russos e chineses.
A seguir ao voto no Conselho constatou-se que afinal o argumento era decalcado do plano traçado pela Liga Árabe, assentava na partida de Bashar Al-Assad, e incluía disposições que tanto o ministro Sergueï Lavrov, como o embaixador russo na ONU e os chineses haviam recusado liminarmente. A generalidade da proposta vetada pouco teria a ver com o que foi tornado público pelas fugas de informação.
Moscovo não tem hesitado desde a Resolução 1973 sobre a Líbia, em manifestar a sua oposição às posturas dos EUA e da UE sendo secundada pela China que em Outubro passado acompanhou a ­Rússia no veto de outra proposta sobre a Síria. No caso concreto de Damasco está em causa não só um aliado de muitas décadas como interesses económicos russos.
Com o país a viver uma situação de extrema violência seria de esperar exemplar prudência e a procura de um consenso mais alargado possível para abrir uma janela de oportunidade que encontrasse uma solução negociada para o fim da violência, se esse era como será de acreditar o objectivo do Conselho de Segurança. Bashar Al-Assad aceitara o princípio das conversações através dos russos, tratava-se de conseguir um documento mais modesto que colocasse alguma pressão sem comprometer o diálogo e tirando partido da influência russa em Damasco.
Claro que cinicamente se poderia dizer que a Síria é a testa de ponte do Irão no Mediterrâneo, o único país árabe a manter boas relações com o Irão e que este está na mira de americanos e israelitas. Não chega. Não existe uma “primavera” síria, como hoje se percebe que não existiu uma “primavera” árabe. Não é difícil falar a favor dos direitos humanos e em defesa da população. O difícil é ser consequente com esse discurso colocando antes de mais o interesse dos povos.