27 de Fevereiro, 2012
Em plena crise financeira que ameaça de facto a estabilidade
económica e o desenvolvimento global, as potências tradicionais e até
alguns países emergentes desenvolvem programas militares
multibilionários ou tornaram-se destacados clientes do mercado
internacional.
Os dois últimos anos foram excelentes para a indústria militar. Em 2010 o mercado de armamento movimentou 1.630 mil milhões de dólares e tanto organismos internacionais, como o SIPRI (Instituto de Estudos Estratégicos de Estocolmo) como os analistas de Defesa da Jane’s (instituição privada de estudos de defesa) estimam que em 2011 esse número tenha sido largamente ultrapassado. Facto verdadeiramente notável quando a crise social se agrava por todo o lado e a instabilidade social poderá ser a maior ameaça à segurança.
Os Estados Unidos mantêm a liderança na despesa de investimento militar. Washington pode ter problemas em definir uma política externa ou em ser consequente na cena internacional, não tem porém a menor dúvida quando se trata da manutenção da supremacia militar dos Estados Unidos, nem os eleitores norte-americanos questionam essa supremacia.
A despesa militar, de investimento, nos EUA, nunca é uma questão eleitoral, seja ou não período de crise financeira ou económica. Para qualquer cidadão americano é impensável a ideia de o país estar em segundo lugar. Por outro lado, o chamado complexo militar industrial gera receitas fiscais gigantescas e emprega uma importante percentagem da mão-de-obra do país, pesa consideravelmente nas exportações, mais que os números oficiais, e é um instrumento de política externa. Não é por isso difícil compreender que em tempo de crise os Estados Unidos gastem em despesas militares seis vezes mais que a China ou dez vezes mais do que a Rússia.
Vladimir Putin, que no próximo dia 4 de Março vai tentar regressar à Presidência da Rússia, e neste momento tudo indica que irá ganhar, anunciou já para os próximos dez anos um programa de rearmamento sem precedentes desde o final da Guerra Fria, há duas décadas. Em 2020 o investimento imitar russo atingirá cinco a seis por cento do PIB.
A China está, por seu turno, envolvida num ambicioso programa de armamento que fará no mínimo duplicar o seu orçamento militar até 2015. Em 2012, segundo a Jane’s a China irá investir 120 mil milhões de dólares no seu programa militar.
Em ambos os casos, Rússia e China definiram os Estados Unidos como principal ameaça e, no caso russo, a OTAN como ameaça secundária.
Para a Rússia, a ameaça materializa-se no sistema antimíssil que os Estados Unidos pretendem colocar na Europa, com o apoio de alguns aliados na OTAN mas especialmente com o apoio de antigos países do Pacto de Varsóvia, como a Polónia. O convite feito por George W. Bush a Moscovo para que se juntasse a este programa, justificado no âmbito de uma defesa antiterrorista, não mereceu credibilidade no Kremlin. O sistema antimíssil na Europa é visto pelos russos como uma componente de um programa mais complexo que imuniza os Estados Unidos, dando-lhes a vantagem de poderem desencadear um primeiro ataque nuclear.
De facto, parece termos regressado discretamente à Guerra Fria. Não se fala mais de SALT (Tratado de Limitação de Armas Estratégias) ou de STRAT (Tratado de Redução de Armas Estratégias) mas Putin anuncia a construção de 400 novos ICBM (mísseis balísticos intercontinentais), 600 aviões de combate, 2.300 blindados, oito submarinos com capacidade de lançamento de mísseis nucleares e mais 50 meios navais de superfície. Claro que não podemos ignorar que também existe aqui a necessidade de remodelação de meios e uma componente eleitoral. Se os americanos não querem ficar atrás de ninguém os russos também não querem sentir-se ameaçados por ninguém. Contudo, o programa militar anunciado por Putin tem, tal como nos EUA, um importante efeito na economia.
A China, mantendo a sua ambição de dominar o Mar da China, por onde passa o seu abastecimento de crude e o controlo dos portos de Taiwan, deixa saber que no seu programa estão mísseis contra porta-aviões, aviões furtivos (equivalente dos “stealth” americanos), e um aumento substancial de meios navais, incluindo porta-aviões. Objectivo: contrariar a supremacia dos EUA no Pacífico e no Sul do Mar da China, contrariar a supremacia naval da Índia, designadamente no Índico. Recorde-se que China e Índia mantêm uma zona de disputas fronteiriças, que a China apoiou o programa nuclear paquistanês com quem a Índia tem uma disputa na zona de Caxemira.
Barak Obama, já aqui falámos disso, decidiu-se pela recolocação de efectivos militares, aéreos e navais no Norte da Austrália e pré-posicionamento de equipamento naquele continente. A redução da despesa militar programada para os próximos anos não terá um impacto significativo na capacidade dos EUA no Pacífico uma vez que será obtida significativamente através da retirada do Iraque e do Afeganistão e mesmo da Europa. O reposicionamento na zona do Golfo insere-se numa estratégia de controlo de recursos petrolíferos e rotas marítimas estratégicas. Não é em vão que o Irão ameaça fechar o Estreito de Ormuz onde a 5ª Frota foi reforçada e os ingleses reforçaram também a presença da “Royal Navy”. O que a suceder iniciaria um confronto de dimensões indefinidas, como indefinida é a evolução da situação naquela região.
O papel da Europa, em particular da União Europeia, é curioso. A Grã-Bretanha mantém uma grande operacionalidade aérea e naval bem como efectivos militares consideráveis, independentemente do défice (está fora do euro), a França procura não ficar muito atrás da sua rival, a Alemanha, fruto da sua colaboração em programas militares europeus, foi-se rearmando. Todavia, na generalidade os membros da União Europeia reduzem as suas despesas militares tanto em efectivos como em investimento.
A Europa, na senda habitual, pretende assentar a sua segurança numa aliança atlântica actualmente com menos interesse para os Estados Unidos, um tanto agastados com o pouco investimento europeu a expensas americanas.
A atitude europeia é quase paroquial. A prazo traduzir-se-á numa falta de capacidade de intervenção internacional (seja apoio financeiro aos países em desenvolvimento, seja de apoio militar a aliados ou à ONU). Essa insuficiência trará poucas ou nenhumas vantagens à Europa. Os seus mercados serão reduzidos e os seus fornecedores de matérias primas não sentirão nos europeus um aliado, nem forte nem fraco.
Com uma situação explosiva no Médio Oriente, com um conflito a desenhar-se envolvendo o Irão, com a crescente instabilidade no norte de África, a União Europeia olha para o défice e o Norte europeu esquece que historicamente a sua defesa começa na Europa do Sul. Menos ainda que a defesa europeia, passa pelo desenvolvimento e enriquecimento dos seus vizinhos mais pobres onde prometeu investir e nunca cumpriu.
A “paroquia Europa” é porventura a maior ameaça à estabilidade. A União Europeia tem perdido a sua independência nos fóruns internacionais onde anda a reboque dos Estados Unidos. A Europa do século XXI ainda não foi capaz de entender que se os EUA são importantes na geoestratégia atlântica, a Rússia é o seu parceiro natural. As eleições deste ano na União Europeia poderão modificar esta involução da Europa, este paroquianismo que a leva a fechar-se em si mesma.